terça-feira, 11 de abril de 2017

5. Eco - Por Gustavo da Rosa


 
 
Queria continuar calada ali enquanto Lucas ficava falando sobre nossos quatro anos juntos, mas algumas coisas começaram a me incomodar profundamente. Ele terminou o chocolate quente e estendeu as mãos na minha direção.

“Então, gata, pra onde vamos agora?”
“Eu quero ir pra casa.”
“Uma ótima ideia, aprovo!”
“Não, digo… Eu ir pra minha casa. E tu ir pra tua, sabe?”
“Ah, gata, faz tanto tempo que não vou no teu apartamento, não vejo motivo pra ficar andando por aí sem rumo.”

Aquilo realmente estava começando a me deixar desconfortável. Afastei as mãos dele e tentei lembrar de qualquer coisa que o envolvesse. Não vinha nada, tornando tudo pior para mim. Acho que essa é a primeira vez que conheço um Lucas na vida, pra ser sincera.

“Qual foi a última vez que tu foi até lá?”
“Até onde?”
“Meu apartamento.”
“Ah, foi antes da tua viagem. Faz umas duas semanas, eu acho.”

Viagem? Obviamente não consigo lembrar de nenhuma. Acho que posso começar por isso.

“Viagem?”
“É, tu foi ver tua mãe.”
“Claro, minha mãe.”
“Ela tá bem?”
“Nunca esteve melhor.”
“Isso me deixa feliz, gata, ela ficou preocupada quando tu inventou de parar com o tratamento.”


Acho que aquilo era mais assustador do que ver partes do meu corpo desaparecerem. Até porque não foram apenas duas semanas da minha vida que sumiram da memória, foi cada momento desde meu nascimento. Talvez eu nem tenha nascido. Talvez esse seja apenas o universo querendo apagar um erro.

Não havia parado pra pensar nisso até agora. Acabei levando a situação com tanta normalidade, e aparentemente isso é tudo, menos normal. Lucas tem duas orelhas, tem sua memória, e seus dedos parecem estar no lugar. Todos que encontrei até agora tinham tudo isso.

“Gata, tu tá meio pálida, tá tudo bem?”
“Para de me chamar de gata, por favor.”
“Eu sempre te chamei assim, qual é o problema?”
“O problema é que eu não quero ser chamada de algo que nem mesmo sei o significado.”
“Para de graça, Melissa. Tu sabe que é um elogio!”
“Parece com tudo, menos com um elogio.”
“Tu chegou hoje de viagem, tá cansada, estressada e precisando de carinho. Tem certeza que não é melhor irmos pro teu apartamento?”

Era impossível eu ter chegado hoje, então provavelmente menti pro Lucas sobre o que planejava fazer. Ta aí uma coisa normal, porque sua presença me deixa extremamente incomodada. Queria sair dali o mais rápido possível, mas primeiro tinha que me livrar dele.

“Eu acho melhor tu não ir no meu apartamento.”
“Mas é uma ótima ideia!”
“Não é não.”
“Tá escondendo alguma coisa de mim?”
“Da onde tu tirou isso?”
“Tu escondeu que tava indo naquela casa estranha lá no Centro, onde te fizeram parar com os remédios.”
“Não acho que tenha sido desse jeito.”
“Ah, mas eu tenho certeza que foi.”
“Na realidade acho que tu tá meio que fugindo um pouco do assunto, eu só não quero ninguém lá dentro além de mim.”

Me levantei para ir embora e senti a mão de Lucas se fechando no meu pulso, o apertando com força. Ele fez uma careta e me puxou para perto dele. As pessoas em volta nos olhavam, mas não chegavam perto para perguntar o que estava acontecendo. Teria que dar um jeito de sair dali eu mesma.

“Pode me falar o que tá acontecendo?”
“Eu só quero ir pra casa.”
“Melissa, para com isso. Amanhã mal vamos conseguir ficar juntos já que tu vai voltar pro teu trabalho, então me deixa aproveitar contigo só hoje.”
“Trabalho?”
“A viagem realmente mexeu contigo. É, trabalho.”
“Na fotocopiadora?”
“No jornal. O que tá acontecendo contigo?”
“Nada, eu tô bem.”
“Melissa Souza, eu te conheço bem. Sei que tá acontecendo alguma coisa.”

Olhei para a mão que Lucas segurava e notei que alguns dedos haviam desaparecido, não fazia ideia de quais eram. Ele aparentemente estava focado olhando para outra coisa e não notou. Agora sei mais um nome e sei de um trabalho que não faço ideia do que seja. Deveria me sentir feliz com isso, mas me sinto cada vez mais perdida. É como se eu tivesse tudo aqui, mas nada é realmente meu. Como se Melissa Souza fosse outra existência e eu seja apenas sua substituta.

Mexi meu braço para ele soltar o pulso. Queria ir para casa, mesmo sem saber o caminho de volta. É como se quanto mais descubro sobre mim mesma, menos sei sobre as coisas do mundo. Forcei mais uma vez para que ele me soltasse, mas nada aconteceu.

“É sério, Melissa. Eu te levo.”

Eu só queria ir pra casa, mas nesse momento nem isso consegui dizer. É como se minha vontade de saber mais sobre mim mesma tivesse tirado a maior arma que consegui. Minha voz simplesmente não saía mais. Ela havia desaparecido junto da minha orelha e de alguns dedos. Notei a mão de Lucas se fechar no nada e então mais uma parte de mim havia me deixado.

Corri para longe. Para longe de Lucas, para longe do café, para longe das pessoas que gritavam para mim. Só não consegui fugir de mim mesma. Eu que, provavelmente, seja apenas um eco do que Melissa Souza um dia foi.
 

terça-feira, 4 de abril de 2017

4. A pizza e o sujeito no café - Por Jeremias Soares




“Minhas cópias ainda não estão prontas, moça?”

            Enfio a mão sem o mindinho dentro do bolso para que ninguém perceba a anomalia, pego as folhas e entrego para a mulher. Ela deseja pagar com o cartão de débito. O Jorge me ajuda com a maquininha. Meu coração funciona aos solavancos.  Recolho a santa no chão. Segundos após a mulher sair, aparece o meu colega.

            “Fala, Melissa! Achei que tu não fosse voltar. Até apostei com o Jorge e...”

            “Preciso ir ao banheiro.”

            Sentada no vaso, verifico a mão onde falta o mindinho. Fecho o punho como se preparasse um soco e não consigo me acostumar com a ausência do dedo.  De fato, estar sem um dedo é mais estranho do que perder a memória. Não sei o que pensar, nem o que fazer. Volto para o balcão. Meu colega está lá. É um rapaz que não deve ter mais do que vinte anos.

            “Como é mesmo o teu nome?”, pergunto.

            “Rafael.”

            “Tenho um encontro amanhã.”

            Rafael olha para mim de um jeito estranho.

            “Certo”, diz ele. “Eu também tenho um. Eu acho, pelo menos.”

            “Onde fica o Café do Porto?”

            “Ô, maluca, tu é daqui mesmo?”

            “Eu não sei. Só sei que tenho um encontro.”

            “Ok, vamos lá. Vou te explicar onde fica o Café do Porto. Tu pega a ponte do Guaíba e segue reto toda vida. Vai dar umas duas horas, mais ou menos. Daí é só dobrar para a direita quando encontrar a estátua do Super Mario montado em uma vaca.”

            Anoto as orientações em um papel, dedicada.

            Ele prossegue: “Lá eles servem um excelente ceviche e... PUTA QUE PARIU, TU TÁ SEM A ORELHA?”.

            Constrangida e atrapalhada, eu tento cobrir a orelha — ou, melhor dizendo, a ausência dela — com os meus cabelos cor-de-fogo.

            “AI, MEU DEUS, TEU DEDO TAMBÉM SUMIU!”

            “Fica quieto.”

            “Caralho, maluco! Eu nunca vi uma coisa dessas na vida.”

            “Calma, Rafael.”

            Ele abaixa o tom de voz: “O que aconteceu contigo?”.

            “Eu não sei, eu acho que s...”

            “JORGE, VENHA AQUI VER ISSO!”

            “Eu não quero mais trabalhar.”

            Dito isso, encerro a minha história na fotocopiadora correndo feito uma maluca por dois quarteirões. Sinto vontade de chorar, mas parece que as lágrimas, assim como a orelha e o mindinho, também sumiram. Volto para o prédio e subo até o meu apartamento sem falar com ninguém.

Abro a geladeira, pois estou com fome. Além de gostar de arte, devo ser uma pessoa que cuida da alimentação. Encontro somente frutas e legumes, além de um fardinho com iogurtes zero açúcar. De alguma forma, nada daquilo me apetece. Tento o congelador e encontro mais vegetais, agora congelados. Abobrinha, nabo, beterraba, vagem, couve... O congelador é uma fruteira particular. Porém, debaixo de tudo aquilo, vejo que nem tudo está perdido: uma pizza congelada!  Mesmo sendo pizza vegetariana, é como um oásis para mim.

Leio atentamente as instruções na caixinha, pois não lembro como usar o forno. Após alguns minutos, ela começa a cheirar bem. Meu Deus, que cheiro é esse? Ainda que eu não lembre de nada, meu corpo emite sinais. Sinto que não como uma pizza, ou qualquer outra comida de gente, há muito tempo. Quando a minha língua entra em contato com o queijo derretido, sinto uma explosão de prazer. Por um momento esqueço que perdi a memória, a orelha e o mindinho. Fecho os olhos e enxergo um arco-íris vindo na minha direção feito uma onda. Como três fatias e paro por aí. Eu não devo comer pizza há muito tempo mesmo, pois ela não me cai bem no estômago.

Vou para o sofá e ligo a TV. Não reconheço nenhum dos canais.  Paro em um canal de filmes — lembro o que são filmes. Estranho. Ainda que não me recorde da história e dos atores, sinto como se já tivesse visto aquilo antes. O telefone do apartamento toca algumas vezes, mas decido não atender. Não quero mais surpresas. Também por causa disso, evito me olhar no espelho antes de dormir. Caio no sono sem dificuldades.

O dia seguinte amanhece ensolarado. Tomo um banho demorado e encontro no roupeiro um dinheiro guardado. Sei que aquilo é dinheiro, ainda que não reconheça as características das notas e não saiba o quanto elas devem valer. Por via das dúvidas, pego todas elas e coloco na bolsa. Enrolo um lenço na cabeça para disfarçar a falta da orelha. A mão eu deixo livre, dane-se. Muitas pessoas andam por aí sem um dedo. Saio para caminhar pelas ruas e paro em uma praça. Resolvo ficar sentada em um dos bancos, admirando a natureza. Gosto da natureza. Também acho legal ver as pessoas caminhando para lá e para cá. Aquilo enche o meu coração de paz e faz eu esquecer um pouco os problemas.

Do parque vou para uma lancheria.

            “O que a senhorita deseja?”

            “Gosto de batatas fritas.”

            O atendente me entrega um número e pede para que eu aguarde. Antes de ir para uma das mesas, acrescento:

            “Quero carne.”

            A impressão que eu tenho ao botar o bife na boca é fantástica. Melhor do que comer pizza... quer dizer... pensando bem, o êxtase seria comer uma pizza com um bife em cima.

            Como eu tenho um encontro no final daquela tarde, resolvo gastar o tempo no apartamento mesmo, pois tem uma coisa que me intriga. Fuço em tudo. Fotografias, revistas, roupas e diversos objetos pessoais. Fico preocupada. Também fico preocupada com Lucas. Não sei se ele é meu amigo, namorado ou irmão. De qualquer maneira, me arrumo para o encontro. Procuro pentear o cabelo de uma maneira que esconda bem a falta da orelha. Crio coragem de olhar para o espelho na hora de me maquiar. Felizmente não percebi novos “sumiços”.

            Paro o primeiro táxi que vejo na rua. Presumo estar atrasada.

            “Café do Porto, por favor!”

            Fico intrigada. O táxi chega ao destino em dez minutos. Não cruzamos por nenhuma ponte, tampouco pela estátua. Talvez Rafael tenha se confundido, coitado. Sinto que ele é meio burrinho. Deixo estar e entro no estabelecimento.

            “Procuro um Lucas.”

            “Acho que é aquele lá”, responde um garçom.

            Chego até a mesa onde um sujeito de cabelos loiros toma um chocolate-quente. Ele aparece em algumas das fotos que achei no apartamento.

            “Tu é o Lucas?”

            “Melissa, minha gata!”

            Sem a menor cerimônia, ele enfia a língua dentro da minha boca e toca de leve a minha bunda. Sentindo um misto de surpresa e nojo, sento na frente dele, sem dizer nada. Meu primeiro pensamento é: Como eu posso gostar de um cara desses?

            “Então é amanhã que completamos quatro anos juntos?”, diz ele, sorrindo.

            Quatro anos!, penso, apavorada.

Por causa dele, da investigação que fiz no apartamento e das comidas que tenho em casa, vejo que não somente perdi a memória. Percebo que agora eu sou outra pessoa.