Queria continuar calada ali enquanto Lucas ficava falando sobre nossos quatro anos juntos, mas algumas coisas começaram a me incomodar profundamente. Ele terminou o chocolate quente e estendeu as mãos na minha direção.
“Então, gata, pra onde vamos agora?”
“Eu quero ir pra casa.”
“Uma ótima ideia, aprovo!”
“Não, digo… Eu ir pra minha casa. E tu ir pra tua, sabe?”
“Ah, gata, faz tanto tempo que não vou no teu apartamento, não vejo motivo pra ficar andando por aí sem rumo.”
Aquilo realmente estava começando a me deixar desconfortável. Afastei as mãos dele e tentei lembrar de qualquer coisa que o envolvesse. Não vinha nada, tornando tudo pior para mim. Acho que essa é a primeira vez que conheço um Lucas na vida, pra ser sincera.
“Qual foi a última vez que tu foi até lá?”
“Até onde?”
“Meu apartamento.”
“Ah, foi antes da tua viagem. Faz umas duas semanas, eu acho.”
Viagem? Obviamente não consigo lembrar de nenhuma. Acho que posso começar por isso.
“Viagem?”
“É, tu foi ver tua mãe.”
“Claro, minha mãe.”
“Ela tá bem?”
“Nunca esteve melhor.”
“Isso me deixa feliz, gata, ela ficou preocupada quando tu inventou de parar com o tratamento.”
Acho que aquilo era mais assustador do que ver partes do meu corpo desaparecerem. Até porque não foram apenas duas semanas da minha vida que sumiram da memória, foi cada momento desde meu nascimento. Talvez eu nem tenha nascido. Talvez esse seja apenas o universo querendo apagar um erro.
Não havia parado pra pensar nisso até agora. Acabei levando a situação com tanta normalidade, e aparentemente isso é tudo, menos normal. Lucas tem duas orelhas, tem sua memória, e seus dedos parecem estar no lugar. Todos que encontrei até agora tinham tudo isso.
“Gata, tu tá meio pálida, tá tudo bem?”
“Para de me chamar de gata, por favor.”
“Eu sempre te chamei assim, qual é o problema?”
“O problema é que eu não quero ser chamada de algo que nem mesmo sei o significado.”
“Para de graça, Melissa. Tu sabe que é um elogio!”
“Parece com tudo, menos com um elogio.”
“Tu chegou hoje de viagem, tá cansada, estressada e precisando de carinho. Tem certeza que não é melhor irmos pro teu apartamento?”
Era impossível eu ter chegado hoje, então provavelmente menti pro Lucas sobre o que planejava fazer. Ta aí uma coisa normal, porque sua presença me deixa extremamente incomodada. Queria sair dali o mais rápido possível, mas primeiro tinha que me livrar dele.
“Eu acho melhor tu não ir no meu apartamento.”
“Mas é uma ótima ideia!”
“Não é não.”
“Tá escondendo alguma coisa de mim?”
“Da onde tu tirou isso?”
“Tu escondeu que tava indo naquela casa estranha lá no Centro, onde te fizeram parar com os remédios.”
“Não acho que tenha sido desse jeito.”
“Ah, mas eu tenho certeza que foi.”
“Na realidade acho que tu tá meio que fugindo um pouco do assunto, eu só não quero ninguém lá dentro além de mim.”
Me levantei para ir embora e senti a mão de Lucas se fechando no meu pulso, o apertando com força. Ele fez uma careta e me puxou para perto dele. As pessoas em volta nos olhavam, mas não chegavam perto para perguntar o que estava acontecendo. Teria que dar um jeito de sair dali eu mesma.
“Pode me falar o que tá acontecendo?”
“Eu só quero ir pra casa.”
“Melissa, para com isso. Amanhã mal vamos conseguir ficar juntos já que tu vai voltar pro teu trabalho, então me deixa aproveitar contigo só hoje.”
“Então, gata, pra onde vamos agora?”
“Eu quero ir pra casa.”
“Uma ótima ideia, aprovo!”
“Não, digo… Eu ir pra minha casa. E tu ir pra tua, sabe?”
“Ah, gata, faz tanto tempo que não vou no teu apartamento, não vejo motivo pra ficar andando por aí sem rumo.”
Aquilo realmente estava começando a me deixar desconfortável. Afastei as mãos dele e tentei lembrar de qualquer coisa que o envolvesse. Não vinha nada, tornando tudo pior para mim. Acho que essa é a primeira vez que conheço um Lucas na vida, pra ser sincera.
“Qual foi a última vez que tu foi até lá?”
“Até onde?”
“Meu apartamento.”
“Ah, foi antes da tua viagem. Faz umas duas semanas, eu acho.”
Viagem? Obviamente não consigo lembrar de nenhuma. Acho que posso começar por isso.
“Viagem?”
“É, tu foi ver tua mãe.”
“Claro, minha mãe.”
“Ela tá bem?”
“Nunca esteve melhor.”
“Isso me deixa feliz, gata, ela ficou preocupada quando tu inventou de parar com o tratamento.”
Acho que aquilo era mais assustador do que ver partes do meu corpo desaparecerem. Até porque não foram apenas duas semanas da minha vida que sumiram da memória, foi cada momento desde meu nascimento. Talvez eu nem tenha nascido. Talvez esse seja apenas o universo querendo apagar um erro.
Não havia parado pra pensar nisso até agora. Acabei levando a situação com tanta normalidade, e aparentemente isso é tudo, menos normal. Lucas tem duas orelhas, tem sua memória, e seus dedos parecem estar no lugar. Todos que encontrei até agora tinham tudo isso.
“Gata, tu tá meio pálida, tá tudo bem?”
“Para de me chamar de gata, por favor.”
“Eu sempre te chamei assim, qual é o problema?”
“O problema é que eu não quero ser chamada de algo que nem mesmo sei o significado.”
“Para de graça, Melissa. Tu sabe que é um elogio!”
“Parece com tudo, menos com um elogio.”
“Tu chegou hoje de viagem, tá cansada, estressada e precisando de carinho. Tem certeza que não é melhor irmos pro teu apartamento?”
Era impossível eu ter chegado hoje, então provavelmente menti pro Lucas sobre o que planejava fazer. Ta aí uma coisa normal, porque sua presença me deixa extremamente incomodada. Queria sair dali o mais rápido possível, mas primeiro tinha que me livrar dele.
“Eu acho melhor tu não ir no meu apartamento.”
“Mas é uma ótima ideia!”
“Não é não.”
“Tá escondendo alguma coisa de mim?”
“Da onde tu tirou isso?”
“Tu escondeu que tava indo naquela casa estranha lá no Centro, onde te fizeram parar com os remédios.”
“Não acho que tenha sido desse jeito.”
“Ah, mas eu tenho certeza que foi.”
“Na realidade acho que tu tá meio que fugindo um pouco do assunto, eu só não quero ninguém lá dentro além de mim.”
Me levantei para ir embora e senti a mão de Lucas se fechando no meu pulso, o apertando com força. Ele fez uma careta e me puxou para perto dele. As pessoas em volta nos olhavam, mas não chegavam perto para perguntar o que estava acontecendo. Teria que dar um jeito de sair dali eu mesma.
“Pode me falar o que tá acontecendo?”
“Eu só quero ir pra casa.”
“Melissa, para com isso. Amanhã mal vamos conseguir ficar juntos já que tu vai voltar pro teu trabalho, então me deixa aproveitar contigo só hoje.”
“Trabalho?”
“A viagem realmente mexeu contigo. É, trabalho.”
“Na fotocopiadora?”
“No jornal. O que tá acontecendo contigo?”
“Nada, eu tô bem.”
“Melissa Souza, eu te conheço bem. Sei que tá acontecendo alguma coisa.”
Olhei para a mão que Lucas segurava e notei que alguns dedos haviam desaparecido, não fazia ideia de quais eram. Ele aparentemente estava focado olhando para outra coisa e não notou. Agora sei mais um nome e sei de um trabalho que não faço ideia do que seja. Deveria me sentir feliz com isso, mas me sinto cada vez mais perdida. É como se eu tivesse tudo aqui, mas nada é realmente meu. Como se Melissa Souza fosse outra existência e eu seja apenas sua substituta.
“A viagem realmente mexeu contigo. É, trabalho.”
“Na fotocopiadora?”
“No jornal. O que tá acontecendo contigo?”
“Nada, eu tô bem.”
“Melissa Souza, eu te conheço bem. Sei que tá acontecendo alguma coisa.”
Olhei para a mão que Lucas segurava e notei que alguns dedos haviam desaparecido, não fazia ideia de quais eram. Ele aparentemente estava focado olhando para outra coisa e não notou. Agora sei mais um nome e sei de um trabalho que não faço ideia do que seja. Deveria me sentir feliz com isso, mas me sinto cada vez mais perdida. É como se eu tivesse tudo aqui, mas nada é realmente meu. Como se Melissa Souza fosse outra existência e eu seja apenas sua substituta.
Mexi meu braço para ele soltar o pulso. Queria ir para casa, mesmo sem saber o caminho de volta. É como se quanto mais descubro sobre mim mesma, menos sei sobre as coisas do mundo. Forcei mais uma vez para que ele me soltasse, mas nada aconteceu.
“É sério, Melissa. Eu te levo.”
Eu só queria ir pra casa, mas nesse momento nem isso consegui dizer. É como se minha vontade de saber mais sobre mim mesma tivesse tirado a maior arma que consegui. Minha voz simplesmente não saía mais. Ela havia desaparecido junto da minha orelha e de alguns dedos. Notei a mão de Lucas se fechar no nada e então mais uma parte de mim havia me deixado.
Corri para longe. Para longe de Lucas, para longe do café, para longe das pessoas que gritavam para mim. Só não consegui fugir de mim mesma. Eu que, provavelmente, seja apenas um eco do que Melissa Souza um dia foi.

