domingo, 16 de julho de 2017

16. Salvá-la Carlinhos, salvá-la! — Por vS


Ao quebrar a linha temporal, novamente tenho um colapso e caio ao chão como se não tivesse mais minhas pernas. Só consigo levar minhas mãos à cabeça e sentir que tudo à volta fica de uma cor desbotada, em tons monocromáticos. Sinto uma dor forte na cabeça e, ao mesmo tempo, escorre sangue apenas de uma das minhas orelhas. Meus pais, que estavam em minha frente, sumiram assim como a cena da poltrona. Por frações de segundo a linearidade do tempo começa a transgredir em minha frente em formato de imagens simultâneas... De repente tudo escurece e novamente volta a dor. Ao abrir meus olhos, me encontro no chão do meu quarto, só que os móveis estão totalmente diferentes. Apesar disso, o lugar parece o mesmo. Sinto que dessa vez não perdi a memória, toda ela se encontra aqui. Mas uma coisa volta a intrigar: decido me olhar no espelho e no meu reflexo me deparo mulher, jovem. Sou ruiva. Visto colete verde sobre uma camiseta de algodão branca. Tenho relógio, brincos, calça jeans. Pareço uma mulher alegre.
No momento tenho uma impressão esquisita de não saber o que ainda está acontecendo comigo, e o que aconteceu, enfim, com a Gisele, nem o que era última imagem que havia visto dela. Também penso nos outros, meus pais, a Pat e o Carlinhos. Até a Bruxa da Clarisse que me fez transgredir novamente na linha do tempo, e penso no que seriam os fatos e me vem novamente a dor na cabeça, como se fosse abrir da nuca até meu pescoço tamanha dor. Escuto minha mãe... “O que tu fez, Melissa?” ... “Tu não lembra o que ele fazia com ela, Melissa? Ela teve que morrer naquele dia para que ele fizesse o que fez.”
E me encontro no quarto em pé com a dor. Mas tudo normal, estou equilibrada em cima de meu próprio corpo. Dessa vez havia sido diferente, precisava encontra resposta com alguém que poderia me ajudar. Logo abro a porta do quarto, procuro o telefone e o encontro jogado em cima de um pufe. Esse pufe não exista – e eu nunca gostei de pufe. Enfim ligo para Patrícia, mas o número que eu disquei dá inválido. Decido sair do apartamento. Ao olhar para porta, vejo pendurada na fechadura a chave com a maldita santa rezando. Pego a chave, arranco a santa e a coloco em cima da mesa. Antes de sair tenho receio de olhar o número e não ser mais o 802. Saio e olho para trás: ufa! ainda é, sim, o 802. É o mesmo prédio que ainda tem o carpete velho e úmido, cheirando a cachorro molhado. A água escorre do teto até encontrar o rodapé.
Balanço a cabeça, negando a mim mesma...
Que fiz ao salvar a Gisele e o que era o sangue que escoria na poltrona? Enfim vou até a casa de Pat, mas Pat não está lá e, ainda pior, o local está vazio. Volto ao meu apartamento e penso em descansar, pois minha cabeça dói demais. Me sinto aliviada por ter salvado a Gisele, por ter minhas memórias novamente. Com fome, vou até a geladeira e vejo que não tem nada que me interesse. Ao fechar a geladeira, vejo o número de um local que entrega pizzas. Decido que, por mais que eu queira respostas, preciso me alimentar antes de procurar amarrar as últimas pontas soltas de minha vida. Após comer a pizza, decido ir.
Como desvendar o que eu ainda não sei, como viajar no tempo? E de que forma eu ativo isso? Pois quero que isso não aconteça mais, não agora que sinto ter conseguido ajeitar as coisas como deveriam ser. Saio de casa ataco o primeiro táxi que vejo.
Pra onde vamos, moça?”
Clínica Oblivion, Avenida Nilo Peçanha, número 1800”
Ok...”
Chego à clínica, subo direto e peço explicações aos meus pais, que já me esperavam lá...
Oi, Melissa. Demorou dessa vez, diz minha mãe”
Como assim demorei?”
Sim, toda semana tu volta aqui sem a memória e não lembra das coisas e começa a fazer perguntas sobre uma tal Gisele e sempre te acalmamos.”
Penso que algo ali não está me cheirando bem...
Sinto alguém se aproximar. É o bruto do Max que vem para me segurar. Meu pai me aplica novamente Avenal de Promatazol com uma seringa enorme.
Calma, Melissa, esse é o inibidor dessa transgressão no tempo. Antes que você queira tentar salvar a Gisele outra vez, vamos te medicar, e cuidar de você...”
Empurro eles e saio de lá correndo. Desço pelas escadas de emergência e fujo da Oblivion.”
Sabendo que o Avenal de Promatazol servia como inibidor das minha transgressão temporal, eles começaram a me injetar a substância. Agora faz sentido eu achar que estava perdendo parte do meu corpo. Eram efeitos colaterais do inibidor das minhas viagens no tempo. Sem mais demora, decido procurar a Clarisse, afinal ela poderia me dar novamente as respostas. Vou à casa da Clarisse. Agora eu sei que eu quis esquecer a memória por culpa de ter deixado a Gisele morrer afogada e não a ter salvado. Eu voltei no tempo, lutando contra as dores de algo que eu nem sabia que poderia fazer e ainda assim acumulo minhas memórias. Sei que fiz isso e pude voltar e salvar a Gisele, mas ainda não sei como faço isso acontecer. Isso será efeito ainda das injeções e os medicamentos contínuos que eu fiz ou é um dom? Há tantas dúvidas na minha cabeça enquanto eu corro sem parar pelas ruas da cidade. Parece que não há ninguém em volta. Eu apenas quero saber a realidade de tudo o que aconteceu à pobre Gisele e o porquê de eu começar com as pílulas e os tratamentos.
Mais curiosa eu fico por não saber como eu transgrido no tempo. Mesmo com a explicação que meu pai fez na clínica, tudo é ainda novidade. Ainda sinto que não tenho controle sobre nada em minha vida. Corro até a casa da Clarisse, curiosa por explicações e para ver a cara do José. Ele me dá calafrios sempre que me fita com aquele sorriso nojento dele.
Chego na casa de Clarisse. Tudo parece igual em torno. Até a porta ainda é a mesma. Bato na porta duas vezes, lentamente. Em seguida aparece a Clarisse e me olha com um rosto familiar. É como se ela já estivesse me esperando ali.


Olá, Mel. Entre. O Chá de Hortelã já está ali. Estávamos todos te esperando...”


Nisso fico em estado de choque em frente à porta, sem olhar para dentro, pensando “Quem são todos?” Com muito temor, decido entrar na casa e vejo sentados Pat e Carlinhos, um ao lado do outro, parecendo um casal. Mas enfim miro a senhora Clarisse.


Me conta o que aconteceu depois que eu deixei a Gisele aqui após salvá-la! Clarisse, me diga. Desembucha, sua Bruxa!”


Melissa... Melissa, você tem que parar com isso. Essa já é a quarta vez que tu tenta salvá-la do destino dela”


Como assim destino dela, Clarisse? Explica isso melhor...”
Mel, quando descobrimos o que o José fazia com a pobre Gisele, entendi por que ela se isolava: o José era um monstro. Agora, nessa sua volta, a linha do tempo mudou. Tudo porque tu te culpou desde a primeira vez que a Gisele se atirou no píer e vocês não a ajudaram...”
Para, por favor, Clarisse. Não estou conseguindo entender essa pancada de informações.”
Clarisse diz que também não entendia e nisso imediatamente fica calada.
Mel, deixa dessas coisas e vamos voltar para continuar usando o inibidor. Você conseguiu ficar bastante tempo sem lembrar da Gisele. Isso foi o que aconteceu por ter parado os medicamentos. As memórias da tragédia voltam, e sempre que voltam tu desaparece, Melissa, e sempre que a encontramos tu novamente está sem saber quem é e não lembra de nós.”
Pat, só quero saber se a Gisele está salva do José.”
Salva não está, Melissa.”
Como assim, Patrícia?”
Ai, Mel, deixa a Gisele onde ela deveria ter ficado: no fundo do píer.”
Melissa, você tem que parar com isso. É, Melissa você tem que parar de tentar salvar a Gisele. Ela tem o destino dela!”
FIQUEM quietos, Pat e Carlinhos, vocês podiam ter me contado isso na primeira vez que perguntei. Deixaram eu fazer tudo isso diversas vezes e ninguém impediu.”
Melissa...”
O que, Pat?”
Nós tentamos, Mel, tentamos muito. Teve os tratamentos que tu fez, as perdas de memórias, tudo isso foi feito para tentar evitar de tu te culpar pela morte da Gisele ou por salvá-la e descobrir o que acontecia com ela e tentar mudar sempre a história. Mel, tentamos te impedir muito, não é, Carlos?”
Realmente, Melissa. Todas as vezes nós, assim como seu pais, todos apenas queriam te ajudar e fazer com que tu não tentasse mudar algo que não era culpa tua: O José molestar a Gisele”
Ainda assim são muitas dúvidas que eu tenho. Como vocês não perdem a memória com as minhas viagens no tempo? Como vocês nunca esqueceram como eu? Me expliquem, Patrícia e Carlos Carneiro.
Melissa, você aceitou no dia 25 de outubro fazer parte de algo que nosso pai, após muito estudo e ajuda, conseguiu descobrir...”
Conseguiu o que, Pat? Para de enrolar e diz tudo logo. Não aguento mais esses jogos de ir descobrindo as coisas aos poucos. Onde está a Gisele e o que aconteceu com o José afinal?”
Melissa, nessa sua última tentativa de mudar os acontecimentos previstos, tu fez com que a Gisele criasse coragem de fazer diferente uma vez.”
Como assim, Pat?”
Mel, a Gisele matou o José e logo depois novamente correu até o píer e se jogou lá. E nada foi possível para mudar, Mel. Tu já tentou diversas vezes. Para de te culpar por algo que não é tu que decide. É o destino dela, Mel, e o que fazíamos com ela nessa linha do tempo nunca existiu, então para de te culpar.”
“Patrícia, me explica como vocês todos não perdem a memória e o porquê da linha do tempo de vocês não mudar?”
Mel, após muitos estudos, chegamos à conclusão que tu pode mudar a tua linha do tempo e da pessoa que está contigo, mas isso não afeta no nosso destino. E como sabemos que tu faz isso é porque tu fez isso mais de uma vez. Por isso com a gente nada acontece de diferente.”
É, Mel, descansa. Tu sempre fez o teu melhor, e com certeza a Gisele está feliz no lugar que está só por você ter mudado alguns fatos.”
Carlinhos, tu lembra a última vez que eu tentei salvar a Gisele?”
Sim, lembro, Mel. Estávamos aqui na Clarisse e de repente tu virou as costas e saiu correndo em direção ao píer igual às outras tentativas de salvar a Gisele... Corria em direção ao píer, chorando e dizendo que precisava mudar tudo isso.”
Exatamente, Carlinhos. Está certo. Não irei ficar contente enquanto eu não salvá-la.”
Melissa Souza, você está novamente fazendo a cara que sempre fez e logo após isso sempre...”
Sempre o que, Carlos Carneiro?”
Sei lá. Nós todos temos medo de tu não viver mais e sempre tentar mudar o destino da Gisele. Só queríamos te ajudar. Tudo até hoje foi só visando o teu bem, Mel.”
Ok, Carlinhos, até mais...”
Onde você vai, Melissa?”
Você disse que não salvo a Gisele e já tentei diversas vezes.”
Sim, Mel. Você ficava séria e nisso virava as costas, deixava eu e a Patrícia pra trás e saía correndo em direção ao local onde a Gisele cometeu suicídio. E sempre dizendo que dessa vez não iria errar, que ia, sim, salvar ela e todos nós.”
Melissa Souza, espera aí, onde tu vai, guria, correndo desse jeito?”

Salvá-la, Carlinhos, salvá-la...”

quinta-feira, 6 de julho de 2017

15. Mancha de sangue, em couro, não sai – Por Camila Mello


Posso sentir o tremor das mãos de Gisele subir por toda a extensão dos meus braços. Tento dar o primeiro passo em direção a soleira da porta, mas a força que ela exerce, inconscientemente, me barra os movimentos. Aquele sorriso era realmente assustador, mas não consigo entender o motivo de sentirmos tamanho pavor diante daquele homem; era José, namorado da Clarisse. Lembro que não gostamos dele, mas o motivo me foge. O que ele teria feito de tão ruim para causar tal reação?
Interrompendo meus pensamentos, percebo sua mão nas costas de Gisele.
“Anjo, o que houve que está toda molhada? Entra e me conta. ”
Anjo? A voz era familiar e o tom malicioso. Grotesco também. Mas agora tudo se mistura em minha cabeça. Porque eu sinto que salvei a vida dela, se ela me olha como se fosse melhor ter deixado ela lá, se afogando?
Tento me lembrar da conversa que tive com Clarisse, ela me disse que ele não estava mais lá quando hesitei em sentar na poltrona, e por que hesitei? Lembro somente da repulsa em deixar minha pele entrar em contato com aquele couro amarelado, mas ainda não sei o que aconteceu. Minha cabeça dói, meus olhos estão embaçados. As memórias voltaram juntas. Não consigo alinhar o que acontecia ontem com as novas memórias infantis adquiridas recentemente. Enquanto José leva Gisele, estarrecida, para dentro, olho o meu reflexo no espelho atrás da porta, tenho 11 anos e todas as minhas memórias adultas estão aqui, sinto um formigamento nas mãos, essa sensação de que não acabou aqui não vai embora. Decido ir atrás de Pat e Carlinhos. Quando estou prestes e sair pela porta, a qual foi difícil atravessar, olho para trás e vejo nos olhos de Gisele uma expressão que nunca, mesmo se eu perder novamente a memória, poderei esquecer.
“Tu acabou com a minha vida! ”
Sinto um arrepio. Acabei? Eu salvei a vida dela! Deve ser por isso que achamos ela tão estranha.
Enquanto tento formular uma resposta, ouço a voz de José:
“Obrigada, Mel, por trazer o anjo de volta”
 Meu coração parece saltar do peito, as cenas daquela figura aterrorizante começam a voltar, mas é tudo tão nebuloso que nada faz sentido. Corro cada vez mais rápido e penso que Pat e Carlinhos não podem me ajudar. Se alguém pode me explicar são meus pais. Paro antes da esquina da farmácia do seu Nestor para tomar fôlego, logo me lembro que, se tenho 11 anos, e a Gisele está salva, não deve existir laboratório e ele estão em casa. Dobro a rua rapidamente e avisto a fachada amarela. Parece ter alguém em casa, as janelas não ficariam abertas assim com a mania de perseguição da minha mãe. Abro a porta da sala e meus pais estão sentados em nossa mesa de jantar. Sinto novamente o coração acelerado e o formigamento nas mãos: eles estão de jaleco branco e seguram taças como se estivessem brindando a descoberta de algo. Quando percebem minha presença, ficam pálidos imediatamente. Minha mãe deixa a taça cair no chão e o barulho dos cacos ecoa na sala.
“O que tu fez, Melissa?”
A voz de meu pai soa quase irreconhecível.
“Eu não entendo, fiz o que devíamos ter feito da primeira vez. Salvei a Gisele.”
Minha mãe cai sobre as pernas e permanece no chão.
“Eu sabia que isso acontecer, eu avisei!”
“Mãe, me explica o que está acontecendo. Por que tu tá vestida assim, por que a Gisele disse que eu acabei com a vida dela? ”
“Por que tu acabou mesmo. Tu achou que poderia alterar os acontecimentos da linha do tempo assim, sem consequências? ”
Começo a suar frio e sinto a ponta dos meus dedos desaparecendo.
“Quais consequências? ”
“Tu não lembra o que o ele fazia com ela, Melissa? Ela teve que morrer naquele dia pra que ele fizesse o que fez. ”
Nesse momento as imagens que estavam borradas começaram a voltar e eu vejo nitidamente a poltrona de couro amarelada e alguém sentado nela, mas a pessoa está imóvel e há sangue escorrendo pelos dedos.
“Agora que ela voltou, ele não tem porque ter “ido embora”, Melissa. ”