terça-feira, 30 de maio de 2017

10. Respostas? - Por Alexia Fossati


 
Me sento no sofá e pego o primeiro papel, que está grampeado ao segundo. É um papel menor, e quando o viro para poder ler, vejo que é um termo de compromisso, assinado por mim, que diz que eu aceitei participar das pesquisas de um medicamento em teste, chamado Avenal de Promatazol, e que eu estava ciente dos riscos e dos “possíveis efeitos colaterais” dele.  Olho para o papel, me sentindo um pouco nauseada. Não me lembro de estar ciente de nada disso. O que raios foi que eu fiz que me forçou a assinar um termo para virar cobaia de laboratório? Minha cabeça começa a doer, mas eu continuo, sentando no sofá com o resto dos papéis na mão. Seguro o próximo. Está virado, e eu não tenho certeza de quero saber o que está no outro lado. Respiro fundo e o viro. É uma receita para o tal de Avenal de Promatazol. Não me lembro de ter comprado, mas assumo que sim, pois só tenho uma via. Imagino o que esse remédio fez comigo, as palavras “efeitos colaterais” voando na minha cabeça como pequenos pássaros de preocupação. Meu Deus, como eu odeio não lembrar de nada. Coloco a receita ao meu lado no sofá, porque olhar para ela só está me fazendo sentir pior, e pego o próximo papel.

 

Só que, para a minha surpresa, não é um papel, e sim uma foto. Nela, quatro pessoas sorriem para a câmera, em frente ao prédio da Av. João Pessoa que agora estava à venda na imobiliária. Duas delas, um homem e uma mulher, estão vestindo jalecos de laboratórios, e o homem segura uma prancheta. Instantaneamente reconheço os dois. São os meus pais. Não sei por que, mas esse reconhecimento faz meu estômago borbulhar com uma mistura de nojo, raiva e arrependimento. Tento focar nas outras duas pessoas da foto, Pat e eu. Pat parece a mesma, só que mais nova, e de cabelos pintados de roxo. Ela está me abraçando na foto, e, quando olho para meu rosto, quase não me reconheço. Meus olhos estavam grandes e desfocados, eu estava sorrindo mas sei que não era genuíno. Estou segurando algo - um pacote laranja - mas, por mais que tente, não consigo me lembrar o que estava dentro dele. Por fim, percebo que estou usando um macacão todo verde. Essa foto me dá arrepios, decido, antes de colocá-la de lado com os outros papéis.

O quarto papel é, na verdade, um bloco de folhas bem fino. Olho algumas das páginas. São todas escritas à mão. Escolho, aleatoriamente, uma página, e leio.

 

22.09.2003

Paciente fazendo um progresso bom, mas lento. Não parece se lembrar mais do local, mas lembra das pessoas presentes no dia. Não apresenta nenhum efeito colateral. Aumentei a dosagem e a colocarei em observação.

Dosagem atual: 22,5 mg

Nova dosagem: 25 mg

 

Algo não está certo. Tenho certeza disso. Dosagem aumentada? Não faço ideia de como remédios funcionam, mas acho que 25 mg é uma dosagem alta. Folheio o bloco novamente, e paro em uma das páginas no final. Um calafrio corre pelo meu corpo ao perceber que a folha está preenchida por apenas duas frases.

 

30.10.2003

Efeitos colaterais aumentaram. Paciente diz não lembrar da própria família.

 

Folheio de novo, e descubro que todas as páginas no final se parecem com aquela: Paciente diz não lembrar onde mora. Paciente diz não lembrar seu sobrenome. Paciente diz não lembrar quem é…

 

Mas uma página, a última, me chama atenção.

 

Paciente desaparecida.

 

Está escrito assim, sem data, sem nada. Sem nenhuma informação útil sobre o que aconteceu comigo. Estava prestes a pôr de lado o bloco quando notei a marca d’água que as páginas tinham. Não acreditei no que vi. Procurei uma folha com menos escritos, só para ter certeza e quase caí de susto quando vi que a mesma santa que estava no meu chaveiro, estava também nas páginas.

Sem saber o que fazer, ligo para Pat. O telefone chama, mas ninguém atende. Meu nervosismo aumenta. Isso tem que significar alguma coisa. Ligo de novo. Sem resposta. Na terceira vez que tento, a voz irritada de Pat me responde.

 

“O que tu quer? ”

“Pat. Me diz o que aconteceu.”

“Não, Melissa. Já te dei os papéis. Isso devia servir pra tu parar de querer fuçar em tudo”

“Mas, Pat...”

“Não, Melissa. Sério, já deu disso. Tu não tá vendo que isso não é bom?”

“Pelo menos me responde uma coisa.”

Pat fica em silêncio por um momento. Consigo ouvir ela cochichando algo, depois suspirando.

“Uma coisa.

“Obrigada, Pat, sério mesmo.”

“Fala, Melissa, antes que eu me arrependa.”

“Desculpa, desculpa. Hm. Os nossos pais, Pat.”

“O que tem eles?”

“Essa é a minha pergunta. Onde eles estão? ”

“Merda, Melissa! ”

“Pat, tu prometeu...”

“Eu sei, ok? Eu sei.”

“Então me diz...”

 “Eles ainda estão lá.”

“Lá onde, Pat? Fala comigo, por favor. Me ajuda.”

Ouço Pat respirar fundo.

“Na clínica, Melissa, eles ainda estão trabalhando na clínica.”

 

 

 

quinta-feira, 25 de maio de 2017

9. Pistas - Por Luanda Santos


 
 
Carlinhos Carneiro, outra vez! Esse nome não me soa estranho, mas isso não importa! Talvez importe, se ele puder esclarecer o mistério em que minha vida se transformou para mim. Fico parada olhando para a carta, pensando em como encontrar pistas que me ajudem a lembrar de algo. Penso no endereço do remetente, mas nada concreto. Apenas uma cidade, Cachoeira do Sul. A carta não me ajuda em nada. Penso em algo que eu possa fazer para descobrir o mistério que me assola.


       Depois desse dia estranho, fico com medo de dormir, mas o cansaço me vence. Pela manhã, acordo com Pat me chamando, dizendo que tem que fazer uns exames laboratoriais e que não demora. Pingo, sempre eufórico, corre de um lado para o outro nos cômodos da casa.

       E lá vou eu novamente, na tentativa de encontrar a verdadeira Melissa, só que desta vez não são minhas coisas que irei mexer, mas sim as de minha irmã. Reviro as gavetas do quarto de Pat com Pingo me fazendo companhia, porém ele começa a latir e a ficar agitado percebendo minha aflição.


"Quieto, Pingo! Shhh! Pega o ossinho".


      Jogo um objeto para fora do quarto e fecho a porta, para ganhar tempo e espaço. Continuo procurando algo, não sei o quê, mas preciso de alguma pista de quem eu sou, de quem eu fui. Encontro uma pasta de couro antiga, daquelas que são fechadas à chave. Tento abrir, mas está trancada.  Claro que não estaria aberta. Aliás, tudo em minha vida parece estar trancado.

     Vejo um molho de chaves junto com aquele chaveiro da santa rezando. Decido então pegá-lo e ver se há alguma chave menor que abra a tal pasta. 

     No molho, algumas chaves de tamanhos tradicionais e outras menores. Obviamente, tento com as chaves menores. Testo com a primeira, segunda, terceira chavezinha e nada. Última chavezinha, e ela quebra na fechadura da pasta.

 
"Putz, quando a chave está certa, ela quebra na fechadura da bolsa." 

"Claro! Não é pra ti mexer aí! Por que tá mexendo nas minhas coisas, Melissa?!"

"Pat, eu preciso saber...”.

"Melissa, o portão tava aberto e o Pingo na rua, quase foi atropelado! Ainda bem que um rapaz pegou ele e, como estava de coleira, deduziu que deveria ter fugido de alguma casa. Quando Pingo me viu, veio correndo, como sempre faz”.

"Tá, Pat! Realmente eu não cuidei do Pingo, mas precisava encontrar respostas”.

"Que respostas? Do que tu tá falando, guria?"

"Faz tempo que eu quero te falar e perguntar umas coisas estranhas que andam acontecendo comigo, mas sempre quando eu vou falar... Sei lá, alguma coisa acontece e o assunto sai do ar. Às vezes tenho a impressão de que não é para eu saber das coisas.”

"Calma, Mel, eu te desculpo pelo Pingo. Afinal, ele está aqui e bem. Tá tudo bem!"

"Calma, Mel? Até há pouco tu tava me chamando de Melissa! E agora me chama de Mel. Ah claro! Depois que eu disse que ia te perguntar umas coisas tu te acalmou. Afinal, o que aconteceu, Patrícia? O que estão escondendo de mim, que eu não posso saber? E os nossos pais, onde estão?"

"Tô vendo que, mesmo com o que aconteceu, tu continua bem curiosa, né? Então tá, vem comigo..."


       Naquele momento, minha irmã estica seu braço em minha direção e aponta para a bolsa com a chave quebrada na fechadura, fazendo um sinal para eu lhe alcançar. Faço o que ela solicita por gestos, e ela me leva até um cômodo da casa, cheio de armários com muitos papéis e tubos de ensaio. O cômodo cheira a papel velho com um odor forte de alguma solução que não sei explicar ao certo qual é. Da vontade de espirrar, e o cheiro forte enjoa.

       Pat pega uma faca e corta a bolsa para abri-la: retira uns papéis e me alcança. 


"Toma, é isso que tu tanto procura”.

"O que é isso?"

"Já falei, aí está tudo que tu precisa saber”. Vamos sair daqui. A gente nem devia mais vir até aqui. Vamos embora!"

"Tá, mas..."

"Chega, Mel! Eu não gosto desse lugar e muito menos de falar neste assunto."

"Que assunto, Pat? Por favor, me esclarece!"

“Já disse. Tudo o que tu precisa saber está nos papéis que te alcancei. Agora chega, vamos sair daqui de uma vez. Esse lugar me traz péssimas recordações e dá arrepios. Além do mais, tenho que sair um pouco.”

"Aonde mais tu vai?"

"Nem sei, vou andar por aí, espairecer! Eu tento esquecer o que aconteceu, mas tu não deixa! Quem me dera estar que nem tu. Sem lembrar de nada. Tu não sabe o teu privilégio.”


       O que Pat disse soou com tanto ressentimento que nem perguntei a ela o que aconteceu. Ela não ia me dizer mesmo. Pelo que ela falou, parecia querer estar no meu lugar. Eu, toda perdida, sem lembranças, e ela dizendo que é privilégio. Não sabe de nada!

       Pego o bolo de papel que ela me entregou. Dou uma olhada por cima e avisto um endereço: Av. João Pessoa, 943 - Bairro Farroupilha. Pego o papel para ver do que se trata, mas nele tem uma linguagem técnica, com algumas fórmulas matemáticas que eu não entendo.

       Vou até o endereço, mas o local é um prédio vazio, com placas de “vende-se” e um cartaz onde diz: Imobiliária Farroupilha, com um número de telefone. Anoto e ligo. 

 

"Imobiliária Farroupilha, Boa tarde!”

"Imobiliária? O que é isso mesmo?”

"Local que vende ou aluga imóveis, em que posso te ajudar?”

"Ah, sim, é que... Vi esse telefone num cartaz colado nas paredes de um prédio...”

"Qual o endereço?”

"É: Av. João Pessoa, 943 - Bairro Farroupilha.” 

"Sim. Este imóvel está à venda, lhe interessa?”

"Me interessa?!”

"Então tá, terá que vir até a imob...”

"Calma! Preciso de informações, para saber se me serve ou não.”

"Mais informações, somente vindo até a imobiliária. Avenida João...”.

"Só quero saber por que o imóvel está à venda e o que tinha lá antes?”

"Não sei se posso te passar essas informações. Sou nova aqui e estou em contrato de experiência.”

"Ah, moça, me ajuda só com mais uma ou duas informações, coisa rápida.”

"Tá bem! Também não vejo razão para não te ajudar. Está à venda porque a clínica queria um imóvel maior.”

"Clínica?" 

"Sim. Uma clínica psiquiátrica!"

"E você sabe qual era o nome da clínica?"

"Uhmmm acho que temos aqui nos registros, deixe-me ver. Os papéis estavam aqui por cima, agora pouco."

"Puxa, muito obrigada! Tu não sabe o quanto tá me ajudando"

"Encontrei, o nome da clínica era tu tu tu....."


Não acredito que caiu a ligação, logo agora. Tomara que seja a mesma moça que atenda ao telefone, nem perguntei o nome dela. Ligo novamente e um homem atende. Explico que estava falando com uma atendente, e a ligação havia caído. Passo o que estava falando com ela e solicito que a localize. Ele diz que é o dono da imobiliária e que ela está atendendo alguns clientes presencialmente. Solicito as informações, e ele, friamente, fala que só pode me dizer pessoalmente e finaliza a ligação sem me dar chance de continuar


Nossa, que péssimo atendimento! Mas ao menos eu já sei que era uma clínica psiquiátrica o que havia no local. Dá para começar a imaginar por que Pat não gosta de tocar no assunto. Mesmo assim, minhas dúvidas aumentam, pois eu consigo metade das informações, o que me deixa mais intrigada ainda.

            Chamo um táxi e vou para casa. Ao chegar, tudo escuro. Nem sinal de minha irmã, nem de Pingo. Resolvo então ler o restante dos papéis que minha irmã havia retirado da pasta. Ela disse que as respostas estavam ali.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

8. Já faz um tempo - Por Marcelo Kettz



Ainda estou tentando processar o que acabou de acontecer quando escuto a voz me chamar mais uma vez, agora mais perto.

“Mel, anda logo. Tu sabe que a gente tá atrasada, guria”

Da primeira vez, aquela voz já parecia familiar. Agora, mais nítida e me chamando de “Mel”, tenho certeza de que é da Patrícia. Me levanto, olho ao redor e vejo uma pequena sala, bem diferente do ambiente do meu apartamento. O chão é coberto por um tapete velho com algumas marcas de vômito. Nas paredes, um tipo de papel amarelo encardido descasca em várias partes. O teto tem inúmeras marcas de mofo e uma lâmpada apagada, pendurada por fios bem no centro. A luz forte, que entra pela única janela, revela poucos móveis: encostados em uma das paredes, uma cama velha de madeira e um colchão sem lençóis; na parede oposta, uma velha mesa de carvalho, coberta de marcas de uso; diversas garrafas vazias pelo chão. Além disso, posso ver duas portas. A que está entreaberta parece levar a um banheiro. A outra deve ser a saída, penso. Me aproximo para abri-la.

“Patrícia?”

Quando falo, minha cabeça começa a latejar de dor. Ao escutar minha voz, ela abre a porta e entra no quarto.

“Guria, por que tu tá demorando tanto? Tu sabe que a gente tem que chegar lá antes das 11h, ou vamos pagar mais caro.”

“Espera aí, o que foi que aconteceu antes? Tu estava me falando sobre o medicamento quando começaram aquelas coisas estranhas.”

“Que medicamento, guria? Já te falei pra não aceitar essas coisas que a galera oferece aqui. Eu sei que tu está deprê por causa daquele teu namoradinho, mas a gente só vem pro casarão pra beber um pouco e se divertir.”

Ela tem razão. Só de pensar no Lucas já me sinto desanimada. Como pude sustentar um relacionamento com alguém assim?

“Mel, eu sei que tu me acha uma mala nessas horas, mas sou tua irmã mais velha e preciso te orientar sobre isso. Se tu começar a tomar essas porcarias, vai acabar igual àquele coitado ali.”

Ela aponta para o corredor. Um rapaz loiro e magricelo está sentado no chão, com as costas na parede. Parece estar drogado, pois olha fixamente para um canto vazio, como se contemplasse algo fascinante.

“Não, não. Tu tava me contando sobre o remédio experimental que tomei pra esquecer de alguma coisa horrível que fiz. Falando nisso, o que foi que eu fiz, Patrícia?”

“Para de me chamar de Patrícia, tu sabe que prefiro Pat.”

“Tá bom. O que foi que a gente fez, Pat?”

“Acho que o que tu fez foi aceitar uma dessas porcarias do Henrique, depois de beber demais. Aquele guri tem prazer em ver os outros viajando com esses comprimidos. Mas chega de papo furado, vamos logo ou não vai dar tempo.”

Ela pega o meu braço e me puxa pelo corredor. Tem uma força surpreendente, mesmo sendo baixinha. Passamos por vários quartos em estado precário. Vejo pessoas dormindo em alguns deles. Enquanto sou arrastada para fora daquela casa imunda, fico pensando no que aconteceu e no que a Patrícia me disse. Será que foi tudo viagem da minha cabeça por causa de alguma coisa que tomei na noite passada? Por que não consigo lembrar de mais nada? Misturar drogas e álcool pode fazer isso com a memória? Minha cabeça continua doendo, então decido deixar Patrícia me conduzir. Ela me passa segurança. Sinto que posso confiar nela.

Saímos do casarão em uma rua larga de paralelepípedos. Poucos carros estão estacionados naquela quadra e somos as únicas pessoas ali. Parece um bairro tranquilo. No céu azul, sem nuvens, o sol brilha forte e imagino que já passa da metade da manhã. A claridade faz minha cabeça doer ainda mais.

“Onde temos que ir com tanta pressa?”

“Tá bom, vou fazer teu joguinho, senhorita amnésia alcoólica. A gente tem que pegar o Pingo na casa daquela moça que cuida de cachorros. Ela disse que tem que ser até as 11h ou vai nos cobrar mais uma diária. Absurdo, eu sei. Mas é melhor do que deixar o coitadinho sozinho naquele apê. Tu sabe como ele é hiperativo, ia acabar destruindo alguma coisa.”

Caminhamos algumas quadras até parar em frente a uma casa de cerca branca. Pelo espaço entre as madeiras, vejo um bonito gramado que se estende da lateral até os fundos do terreno. Vários cachorros brincam por ali. Um deles corre na nossa direção assim que nos vê. Vira-latas, pequeno porte, pelo marrom. É o cachorro da foto que encontrei naquela caixa. Não sei dizer se tudo aquilo tudo foi alucinação, mas o cachorro e minha irmã, definitivamente, são reais.

“Pinguinho, que saudade, meu mimoso.”

Ela entra pelo portão e se abaixa perto do cachorrinho. Pingo não sabe se cheira, lambe ou sacode o rabinho para ela. Parece extremamente feliz em nos ver. Patrícia tira uma cordinha do bolso e prende na coleira.

“Entra aqui, Mel. Segura um pouquinho ele enquanto eu vou ali acertar com a senhora.”

Faço como ela me pediu. Pingo me olha e começa a fazer festinha. O cachorrinho gosta tanto de mim e eu não consigo me lembrar dele. Isso me deixa mal. Alguns minutos depois, Patrícia sai da casa e voltamos a caminhar pela rua. Passo a coleira para ela.

“Escuta, Pat, tem algo que preciso te contar.”

“O que foi? Alguma coisa do teu namoradinho?”

“Não. Quer dizer, não sei. Está acontecendo alguma coisa estranha comigo. A minha cabeça está uma bagunça. Eu não sei direito o que aconteceu na noite passada. Não consigo me lembrar de quase nada da minha...”

Antes que pudesse terminar, Pingo começa a latir e sai correndo em disparada, arrancando a corda da mão da Patrícia.

“Pingo, volta aqui!”

Ela corre atrás do cão fugitivo. Aperto o passo para não ficar para trás. Alguns metros depois, à frente de um pequeno edifício, vejo a pequena fera abocanhando o calcanhar do carteiro. O pobre homem chacoalhava as mãos e tentava livrar a calça da mordida apertada de Pingo. Patrícia se abaixa e pega o cachorrinho no colo. Pede mil desculpas ao carteiro, que vai embora resmungando. Faz sinal de positivo para mim, enquanto entra pelo portão em direção a porta do prédio. Me preparo para segui-la, quando vejo que, por causa da confusão, o carteiro não conseguiu empurrar totalmente uma das correspondências pra dentro da caixa. Quando me aproximo para colocá-la no lugar, o nome escrito nela me chama a atenção. Pego a carta nas mãos e leio: Melissa Souza.

Rasgo o envelope. Não sei o motivo, mas meu coração dispara enquanto leio:

“Melissa, já faz um tempo que não te escrevo. A vida por aqui anda corrida, mas eu sabia que seria assim quando decidi que largaria tudo pra seguir o meu sonho de ser músico. Tenho sentido a tua falta, e penso em ti sempre que fico sozinho. Terminei aquela música que estava escrevendo pra ti. Vai ser um sucesso, tenho certeza. Coloquei o comecinho pra que tu possa identificar quando escutar no rádio.

Melissa
Te fiz um rock, Melissa.
Pode crer que é sobre amor.
Mas eu não sou publicitário,
e a minha vó é de Bagé.
Eu te escrevi uma carta,
cheia de frases de impacto.
se precisar de alguma coisa, pode pedir que eu faço.
Se tu quiser que eu te leve, eu aprendo a dirigir!

Sei que, em breve, tu vai pra Porto Alegre pra seguir o teu sonho de estudar Jornalismo. Boa sorte, e não te esquece de mim.

Carlinhos Carneiro, janeiro de 2004”

sexta-feira, 12 de maio de 2017

7 – Desespero - Por Bagui


 

Passo alguns minutos pensando em quem será esse tal de Carlinhos. Talvez seja somente um primo ou um amigo meu mesmo, mas de alguma forma quero acreditar que Carlinhos era meu namorado. Qualquer coisa deve ser melhor que o Lucas.

Volto a revirar a casa em busca de informações que me mostrem a Melissa que um dia eu fui. Em uma prateleira alta no guarda-roupa, encontro algumas caixas de um papelão listrado em preto e branco. Subo em uma cadeira e consigo alcançá-las. Essa tarefa de revirar as coisas é difícil tendo uma mão só, ainda não me acostumei. Pra facilitar, decido pegar uma por uma das caixas e colocar em cima da cama. Finalmente, abro uma delas. Encontro somente contas, muitas contas. Na segunda há fotos. Isso me anima, deve haver alguma foto de família. Tenho esperanças de reconhecer algum rosto, mesmo que eu não me lembre de quem se trata. Só uma vaga sensação de familiaridade, como a que senti vendo aquele filme, já me confortaria. De certa forma, parece que tudo o que a Melissa viveu está aqui, guardado em algum lugar dentro de mim, mas eu não consigo acessar.

Ao contrário do que eu esperava não encontro muitos rostos diferentes; a maioria das fotos são minhas e do Lucas. Parecemos tão felizes nelas e isso me causa certa culpa, como se eu tivesse matado o amor que a Melissa sentia. Pensando bem, é bobagem. Sorte dela se eu  terminar com ele, afinal. Além do Lucas, vejo muitas fotos de uma moça que, tirando os cabelos loiros, se parece muito comigo. Mesmo assim, não consigo me lembrar dela, não sinto nada quando a vejo. Há também algumas fotos de um cachorro de pêlo marrom. Ele eu lembro de ter visto em algum momento, só não sei onde. Fora essas, havia duas de um homem de cabelos pretos e meio enrolados e algumas minhas com outras pessoas jovens.

Ainda estou olhando as caixas quando ouço batidas na porta da sala. Porque não esperava receber ninguém e porque as batidas não são simples batidas, mas socos que parecem carregados de raiva, sinto também o meu coração soquear meu peito, como se quisesse sair dali de dentro o mais depressa possível. Procuro no quarto por algo que possa cobrir a falta da minha orelha e encontro uma touca de crochê rosa, que eu visto. Coloco também um casaco com bolsos pra esconder que também minha mão não está aqui. Vou até a sala, mas não abro a porta. Fico olhando para ela durante algum tempo, com medo de quem possa ser. No meu peito e na porta, os socos se intensificam. Finalmente, decido abrir.

Uma mulher muito pequena me olha de forma desesperada. É a mulher que vi nas fotos e agora sinto que não quero me parecer com ela. Ela cospe meu nome da boca e então avança os braços na minha direção. Tento recuar, mas afinal ela só quer um abraço. Sinto pena, então ergo a mão que me resta até a altura das costas da moça. Ela fala meu nome de novo e dessa vez soa quase como uma pergunta. Quero responder que sim, acho mesmo que sou a Melissa, mas da minha boca não sai mais que um ruído rouco. O carpete já não fede a cachorro molhado, mas a cachorro morto.

Faço sinal para ela entrar no apartamento e fecho a porta. Quando me viro levo mais um pequeno susto com ela me olhando fixamente. Penso em sair correndo, mas ela me abraça de novo.

“Mel, eu tava tão preocupada contigo, onde é que você tava?”

Não respondo. Nem se eu pudesse falar eu saberia responder a isso. Ela então me olha daquele jeito de novo, como se soubesse que não sou mais a Melissa que ela parece gostar tanto e quisesse encontrar algum vestígio disso nos meus olhos. Fico satisfeita por ainda ter eles comigo.

“Tu sabe quem eu sou?”

Não quero que ela perceba o que está acontecendo, então tudo o que faço é balançar a cabeça afirmativamente. Pra disfarçar dou um sorriso e aponto para a minha garganta, na esperança de que também ela pense que é só uma garganta inflamada.

“Ah, que alívio, Melissa! Então sabe que sou tua namorada, não sabe?”

Por isso eu não esperava. Quer dizer, tem o Lucas e talvez o Carlinhos. Pelo visto a Melissa não era muito apegada. Mais uma vez faço sinal afirmativo com a cabeça e mais uma vez ela me abraça. Parece chorar no meu ombro. Quero perguntar o que houve, mesmo sabendo que seria em vão, mas ela responde antes mesmo de eu tentar.

“Ah, meu Deus, cara! Tu esqueceu de tudo mesmo. Eu sou tua irmã, não tua namorada. Vem aqui, senta comigo que quero te falar umas coisas.”

Ela seca as lágrimas e eu a sigo até o sofá. É a segunda vez que sento aqui, mas é a primeira em que reparo na decoração da sala. É pequena, na verdade, mas não parece tanto porque uma janela cobre toda a parede lateral e a parede à minha frente é igualmente coberta por um espelho em moldura branca. Através do espelho posso ver a parte de trás da TV, quase todo o tapete branco sob meus pés e também o meu reflexo e o da mulher que se diz minha irmã. A propósito, tinha deixado a mão existente em cima do colo, mas parece que meu dedo anelar também sumiu, de modo que a coloco de volta no bolso.

“Escuta, Mel, que eu tenho bastante coisa pra te falar.”

Me pergunto se ela percebeu que eu não tenho voz pra poder interromper ela, caso eu queira. Só me resta ouvir mesmo.

 “Ok, pra começar, meu nome é Patrícia. Quando tua garganta melhorar, lembra de me chamar de Pat. Aliás, tu faz bem em estar assim toda encasacada, vai melhorar mais rápido.”

Ela realmente achou que é um simples resfriado. Parece tão burrinha quanto o cara da fotocopiadora.

“Então... eu vou ser direta. Há algum tempo aconteceu algo que não deveria ter acontecido, algo que a gente não deveria ter feito. Nós duas nos arrependemos disso, sabe. Acontece que enquanto eu tentava superar aquilo tudo no meu canto, tu começou a ficar meio paranóica. Tu tava meio louca na verdade, achando que tava sendo perseguida e esse tipo de coisa. Olhava praquele teu chaveiro de santa e ficava dizendo que a santinha não faria isso, que ela te condenava e que por causa do que tu fez tu iria pro inferno. Tu ficava dizendo que precisava se confessar e chamar a polícia e gritar no centro pra todo mundo ouvir e... sabe. Eu me preocupava muito, não só por você, mas também por mim.

Depois do que aconteceu, tu teve que começar um tratamento pós traumático, mas não parecia resolver. Então eu descobri uma casa no centro e te levei lá. É uma casa de tratamento psiquiátrico também, só que não é muito... legal, sabe? Depois que você foi pra lá teve que abandonar o tratamento anterior porque os remédios não eram ‘compatíveis’, como eles disseram."

Quero perguntar o que aconteceu. Preciso saber de tudo, não importa o quão ruim isso possa ser. Como não tenho voz faço sinal pra ela esperar e vou procurar uma caneta. Volto a sentar no sofá e pego a mão dela. Escrevo “o que a gente fez?”. Sorte minha que me sobrou a mão direita e que ela não reparou a falta do dedo anelar. Ela olha de canto, mas fecha a mão e continua falando como se não tivesse visto.

“Essa casa que te falei fazia uns tratamentos experimentais, pesquisavam formas de criar uma memória seletiva. Quer dizer, apagar algumas memórias específicas. Isso significa que poderiam apagar as memórias da coisa que aconteceu com você.

Funciona assim: tu pensa naquilo que quer esquecer e, em seguida, recebe uma injeção que inibe as proteínas responsáveis pela ligação entre os neurônios que interagem na formação daquela memória.

Só que, depois dessa injeção, você tinha que tomar uma série de pílulas porque o inibidor podia se espalhar pelo teu sistema nervoso. Eles disseram que, se você não tomasse as pílulas que controlam o efeito das outras drogas, isso afetaria toda a tua rede neurológica, bloqueando também as proteínas responsáveis por outras memórias tuas.

Caso tu parasse totalmente de tomar as pílulas, poderia acontecer o que aconteceu, sabe, você perder toda a memória. Além disso, a médica falou que poderiam ter outros efeitos colaterais, mas como é experimental eles ainda não sabiam dizer que tipo de efeitos seriam esses. Tô dando muita informação?”

Eu mal consigo acompanhar então penso em dizer que sim, mas faço sinal indicando que não. Nesse momento ela passa o cabelo pra trás da nuca e, por alguns momentos, deixa a mão pousada no pescoço. Ela olha pro lado esquerdo, depois pra mim, suspira e só então volta a falar.

“Há umas duas ou três semanas tu ia começar um tratamento intensivo lá na clínica do centro, tinha que ser internada. Lembro que me ligou dizendo que falou pro teu namorado esquisito que ia visitar nossa mãe e que caso ele comentasse qualquer coisa comigo era pra eu confirmar. Tu deve ter feito isso só pra se garantir porque ele não ia falar comigo mesmo, só quem dá atenção pra ele é aquela velha. De qualquer forma, aquela foi a última vez que falei contigo antes de você sumir.”

Desde que ela começou a falar, senti que a ansiedade e a angústia iriam fazer desaparecer o que restava de mim. Meu coração bate em desespero. Não consigo parar de pensar no que a gente possa ter feito pra eu ter que recorrer a esse tipo de tratamento. Não consigo parar de pensar no que eu possa ter feito.

Decidida, eu puxo a mão dela mais uma vez. Sublinho a frase “o que a gente fez?”. Ela diz que não pode falar, que é pra eu esquecer. Escrevo embaixo “Me fala”. Nada. Agora com mais força, volto a sublinhar a frase “o que a gente fez?”. Ela puxa a mão e eu ouço o ruído surdo da sua pele se rasgando sob a ponta da caneta. Com a outra mão, ela pressiona o ferimento. Mais uma vez a ouço chorando. Ela está virada para a janela.

“O nosso pai, Melissa, o nosso pai. E não é só ele, sabe, mas eu prometi que não ia te falar. Para com isso, por favor. Você tá ficando paranoica de novo, porque simplesmente não para?”

A voz de Patrícia se tornava cada vez mais embargada conforme ela tentava falar, de modo que quase não consegui entender as últimas palavras. Assim que compreendi o sentido do que ela disse, vi a caneta caindo como pena no tapete fofo. Não podia mais segurá-la; na extensão do meu braço resta apenas o pedaço inútil de carne que é a palma sem os dedos.

 No reflexo do espelho percebo que há algo de estranho com meu rosto também. Decido olhar mais de perto, mas ao colocar o pé no chão meu corpo tomba pra frente e eu caio. Minha perna esquerda sumiu. Ouço Patrícia gritar meu nome, mas não ouço seus passos vindo em minha direção; ela permanece parada. Depois de algumas tentativas, consigo colocar meu corpo em pé novamente.

Ao me aproximar do espelho percebo que meu rosto se reduziu a uma massa branca e disforme. Não há mais cabelo, não há mais boca, não há mais nariz. Somente meus olhos não me abandonaram. No reflexo noto que a parede antes branca agora está coberta por um papel amarelado. Eu me desequilibro em cima da minha única perna e caio novamente. Para me proteger da queda, avanço a palma da minha mão à frente do meu corpo e sinto-a tocar em algo que parece úmido e pegajoso como mofo. Um cheiro de madeira, vômito e flores mortas inunda o ambiente. É nesse momento que percebo que Patrícia sumiu.

 Mais uma vez eu estou sozinha. 

Ergo meus olhos e vejo a moldura branca do espelho se contorcer até se transformar em uma mesa velha de carvalho. Um brilho de metal assalta minha mente e eu fecho os olhos, deixando minha cabeça cair sobre aquela umidade que, descobri pelo cheiro, era vômito embolorado no tapete. Sinto uma dor insuportável, como se alguém pregasse uma estaca na minha testa e outra na minha nuca.

Alguns instantes depois, torno a abrir os olhos e percebo que meus dedos, mãos, pernas, cabelos, nariz, boca e voz voltaram. Meu corpo está inteiro novamente, mas nunca me senti tão despedaçada. A casa, que só há pouco eu começara a me habituar, já não era mais a mesma.

Ao longe ouço uma voz.

“Melissa, meu bem, já terminou o banho?”

6. Homenagem - Por Paula Silva



Depois de sair com muita pressa do Café do Porto, resolvo entrar no primeiro ônibus que vejo passar na avenida. Não sei para que parte da cidade ele vai, mas como também não sei como voltar para o apartamento, decido que qualquer lugar distante do Lucas me faz sentir melhor. Igual, olho atentamente em volta para ter certeza que aquele grudento não me seguiu, ele me deixa muito agoniada. Ainda mais pela maneira que segurou meu pulso.

Consigo um lugar na janela e me perco em pensamentos. Em relação a mais nova falta, como recorrer às pessoas que possam me ajudar a entender a situação que me levou a estar assim? Sem memória, sem uma orelha, sem alguns dedos e agora sem minha voz. De repente o ônibus do qual estou passa bem próximo a um grande parque, tem muitas árvores, um vasto gramado. É um início de noite bem agradável! Finalmente parou aquela chuva fina que parecia interminável.

Resolvo sinalizar para descer ali e conhecer melhor o ambiente. Ao adentrar o parque avisto um laguinho e bem próximo uma grande estrutura de concreto onde bem em cima tem algo de madeira, fazendo parecer um ventilador gigante. Não sei exatamente o que é, mas dá um charme a mais ao lugar.

Sento em um banco laranja e procuro calmar, também me esforçar para que minha voz volte. Notei que ela sumiu assim que fiquei muito nervosa e com medo. De alguma forma este lugar agora me faz sentir segura. Ao mesmo tempo perdida, pois não sei voltar para casa e nem mesmo consigo perguntar alguma pista que me leve até lá. Resolvo então aproveitar este momento, a paz que este lugar traz para tranquilizar. Mas ainda nada da voz.

Quando fecho levemente os olhos a fim de esquecer um pouco tudo isso, ouço uma familiar voz infantil, gritando entusiasmada:

“Olha mãe! É a tia Mel!”

Jamais vou esquecer a voz do menino que, sem saber, teve a grande responsabilidade de mostrar o caminho da minha própria moradia. Era o maior fã das bolachas que para mim pareceram tão mais ou menos.

Surge ele na minha frente de mãos dadas com sua mãe. Ela diz:

“Oi Melissa! Não te vimos mais no prédio, tu ta bem?”

Tento falar, porém apenas sai uma tentativa muito rouca e baixa de som. Respondo sinalizando com a mão na garganta. Nisso a vizinha – a qual nem sabia da existência – parece me entender:

“Ah sim! Garganta inflada. Guria! Esses dias estive na mesma, tive até que tomar antibiótico. Mas poupa tua voz, se cuida e rapidinho vai estar melhor”.

Conclui a frase com um sorriso gentil. Ainda bem que tenho bons vizinhos, penso. O que se confirma com a seguinte frase proferida por ela:

“Viu, a gente tava no cinema e agora indo pra casa. Não sei tua programação, se quiser uma carona. Já ta meio tarde, né?!”

Faço com a cabeça que sim, aceito a carona. Tento dizer que estou mesmo bem cansada, mas ainda sai um som rouco e baixo da minha voz.


Bom que minha vizinha respeita meu momento e não puxa muito assunto comigo, já com o filho comenta a viagem toda sobre o filme que viram. Uma animação daquelas em os adultos sérios “usam” as crianças como pretexto de irem assistir. E pelos comentários pareceu muito bom mesmo.

Chegamos no prédio e faço sinal de agradecimento. Subo com muita ansiedade para o apartamento, diferente da primeira vez que não me senti pertencente àquele lugar, agora sinto um ambiente mais familiar. Começo a procurar o máximo de informações possíveis na casa. Reviro gavetas, caixas, pastas, livros, anotações. De todo o asco que o Lucas me provocou ao menos falou pontos inéditos, são pistas úteis para conseguir chegar alguma lembrança efetiva. Ao mesmo tempo me assustei: tratamento, casa estranha no centro, trabalho em um jornal. Caramba! Como isso tudo sumiu da minha mente?!


Abro uma pasta onde tem diversos papeis com escritas a mão. Aleatoriamente pego um que inicia com mensagem assinada por um tal de Carlinhos Carneiro, não sei o que ele foi ou é para mim. Um ex-namorado? Um amigo? Um primo? Cogito “foi” pela data que consta nesta carta, janeiro de 2004. Lá na Fotocopiadora soube que estamos em 2015. É bem curiosa a sensação de ler pela primeira vez algo que já tinha conhecimento há anos, mas realmente, a impressão que tenho é de nunca antes ter visto este material.

Esse Carlinhos tinha/tem um grande carinho por mim. Pelo que diz na mensagem, não nos vemos há tempos, ele pede para que eu não o esqueça quando me mudar para Porto Alegre. Para isso chegou a escrever uma música, e o trecho que me rouba um largo sorriso é:

“se tu quiser que eu te leve eu aprendo a dirigir”


Desse jeito cada vez mais quero redescobrir a Melissa que um dia fui.