Passo
alguns minutos pensando em quem será esse tal de Carlinhos. Talvez seja somente
um primo ou um amigo meu mesmo, mas de alguma forma quero acreditar que
Carlinhos era meu namorado. Qualquer coisa deve ser melhor que o Lucas.
Volto
a revirar a casa em busca de informações que me mostrem a Melissa que um dia eu
fui. Em uma prateleira alta no guarda-roupa, encontro algumas caixas de um
papelão listrado em preto e branco. Subo em uma cadeira e consigo alcançá-las.
Essa tarefa de revirar as coisas é difícil tendo uma mão só, ainda não me
acostumei. Pra facilitar, decido pegar uma por uma das caixas e colocar em cima
da cama. Finalmente, abro uma delas. Encontro somente contas, muitas contas. Na
segunda há fotos. Isso me anima, deve haver alguma foto de família. Tenho
esperanças de reconhecer algum rosto, mesmo que eu não me lembre de quem se
trata. Só uma vaga sensação de familiaridade, como a que senti vendo aquele
filme, já me confortaria. De certa forma, parece que tudo o que a Melissa viveu
está aqui, guardado em algum lugar dentro de mim, mas eu não consigo acessar.
Ao
contrário do que eu esperava não encontro muitos rostos diferentes; a maioria
das fotos são minhas e do Lucas. Parecemos tão felizes nelas e isso me causa
certa culpa, como se eu tivesse matado o amor que a Melissa sentia. Pensando
bem, é bobagem. Sorte dela se eu
terminar com ele, afinal. Além do Lucas, vejo muitas fotos de uma moça
que, tirando os cabelos loiros, se parece muito comigo. Mesmo assim, não
consigo me lembrar dela, não sinto nada quando a vejo. Há também algumas fotos
de um cachorro de pêlo marrom. Ele eu lembro de ter visto em algum momento, só
não sei onde. Fora essas, havia duas de um homem de cabelos pretos e meio
enrolados e algumas minhas com outras pessoas jovens.
Ainda
estou olhando as caixas quando ouço batidas na porta da sala. Porque não
esperava receber ninguém e porque as batidas não são simples batidas, mas socos
que parecem carregados de raiva, sinto também o meu coração soquear meu peito,
como se quisesse sair dali de dentro o mais depressa possível. Procuro no
quarto por algo que possa cobrir a falta da minha orelha e encontro uma touca
de crochê rosa, que eu visto. Coloco também um casaco com bolsos pra esconder
que também minha mão não está aqui. Vou até a sala, mas não abro a porta. Fico
olhando para ela durante algum tempo, com medo de quem possa ser. No meu peito
e na porta, os socos se intensificam. Finalmente, decido abrir.
Uma
mulher muito pequena me olha de forma desesperada. É a mulher que vi nas fotos
e agora sinto que não quero me parecer com ela. Ela cospe meu nome da boca e
então avança os braços na minha direção. Tento recuar, mas afinal ela só quer
um abraço. Sinto pena, então ergo a mão que me resta até a altura das costas da
moça. Ela fala meu nome de novo e dessa vez soa quase como uma pergunta. Quero
responder que sim, acho mesmo que sou a Melissa, mas da minha boca não sai mais
que um ruído rouco. O carpete já não fede a cachorro molhado, mas a cachorro
morto.
Faço
sinal para ela entrar no apartamento e fecho a porta. Quando me viro levo mais
um pequeno susto com ela me olhando fixamente. Penso em sair correndo, mas ela
me abraça de novo.
“Mel,
eu tava tão preocupada contigo, onde é que você tava?”
Não
respondo. Nem se eu pudesse falar eu saberia responder a isso. Ela então me
olha daquele jeito de novo, como se soubesse que não sou mais a Melissa que ela
parece gostar tanto e quisesse encontrar algum vestígio disso nos meus olhos.
Fico satisfeita por ainda ter eles comigo.
“Tu
sabe quem eu sou?”
Não
quero que ela perceba o que está acontecendo, então tudo o que faço é balançar
a cabeça afirmativamente. Pra disfarçar dou um sorriso e aponto para a minha
garganta, na esperança de que também ela pense que é só uma garganta inflamada.
“Ah,
que alívio, Melissa! Então sabe que sou tua namorada, não sabe?”
Por
isso eu não esperava. Quer dizer, tem o Lucas e talvez o Carlinhos. Pelo visto
a Melissa não era muito apegada. Mais uma vez faço sinal afirmativo com a
cabeça e mais uma vez ela me abraça. Parece chorar no meu ombro. Quero perguntar
o que houve, mesmo sabendo que seria em vão, mas ela responde antes mesmo de eu
tentar.
“Ah,
meu Deus, cara! Tu esqueceu de tudo mesmo. Eu sou tua irmã, não tua namorada. Vem
aqui, senta comigo que quero te falar umas coisas.”
Ela
seca as lágrimas e eu a sigo até o sofá. É a segunda vez que sento aqui, mas é a
primeira em que reparo na decoração da sala. É pequena, na verdade, mas não
parece tanto porque uma janela cobre toda a parede lateral e a parede à minha
frente é igualmente coberta por um espelho em moldura branca. Através do
espelho posso ver a parte de trás da TV, quase todo o tapete branco sob meus
pés e também o meu reflexo e o da mulher que se diz minha irmã. A propósito, tinha
deixado a mão existente em cima do colo, mas parece que meu dedo anelar também
sumiu, de modo que a coloco de volta no bolso.
“Escuta,
Mel, que eu tenho bastante coisa pra te falar.”
Me
pergunto se ela percebeu que eu não tenho voz pra poder interromper ela, caso
eu queira. Só me resta ouvir mesmo.
“Ok, pra começar, meu nome é Patrícia. Quando
tua garganta melhorar, lembra de me chamar de Pat. Aliás, tu faz bem em estar
assim toda encasacada, vai melhorar mais rápido.”
Ela
realmente achou que é um simples resfriado. Parece tão burrinha quanto o cara
da fotocopiadora.
“Então...
eu vou ser direta. Há algum tempo aconteceu algo que não deveria ter
acontecido, algo que a gente não deveria ter feito. Nós duas nos arrependemos
disso, sabe. Acontece que enquanto eu tentava superar aquilo tudo no meu canto,
tu começou a ficar meio paranóica. Tu tava meio louca na verdade, achando que
tava sendo perseguida e esse tipo de coisa. Olhava praquele teu chaveiro de
santa e ficava dizendo que a santinha não faria isso, que ela te condenava e
que por causa do que tu fez tu iria pro inferno. Tu ficava dizendo que
precisava se confessar e chamar a polícia e gritar no centro pra todo mundo
ouvir e... sabe. Eu me preocupava muito, não só por você, mas também por mim.
Depois
do que aconteceu, tu teve que começar um tratamento pós traumático, mas não parecia
resolver. Então eu descobri uma casa no centro e te levei lá. É uma casa de
tratamento psiquiátrico também, só que não é muito... legal, sabe? Depois que você foi pra lá teve que abandonar o
tratamento anterior porque os remédios não eram ‘compatíveis’, como eles
disseram."
Quero
perguntar o que aconteceu. Preciso saber de tudo, não importa o quão ruim isso
possa ser. Como não tenho voz faço sinal pra ela esperar e vou procurar uma
caneta. Volto a sentar no sofá e pego a mão dela. Escrevo “o que a gente fez?”. Sorte minha que me sobrou a mão direita e que
ela não reparou a falta do dedo anelar. Ela olha de canto, mas fecha a mão e continua
falando como se não tivesse visto.
“Essa
casa que te falei fazia uns tratamentos experimentais, pesquisavam formas de
criar uma memória seletiva. Quer dizer, apagar algumas memórias específicas.
Isso significa que poderiam apagar as memórias da coisa que aconteceu com você.
Funciona
assim: tu pensa naquilo que quer esquecer e, em seguida, recebe uma injeção que
inibe as proteínas responsáveis pela ligação entre os neurônios que interagem
na formação daquela memória.
Só
que, depois dessa injeção, você tinha que tomar uma série de pílulas porque o
inibidor podia se espalhar pelo teu sistema nervoso. Eles disseram que, se você
não tomasse as pílulas que controlam o efeito das outras drogas, isso afetaria
toda a tua rede neurológica, bloqueando também as proteínas responsáveis por
outras memórias tuas.
Caso
tu parasse totalmente de tomar as pílulas, poderia acontecer o que aconteceu,
sabe, você perder toda a memória. Além disso, a médica falou que poderiam ter
outros efeitos colaterais, mas como é experimental eles ainda não sabiam dizer
que tipo de efeitos seriam esses. Tô dando muita informação?”
Eu
mal consigo acompanhar então penso em dizer que sim, mas faço sinal indicando
que não. Nesse momento ela passa o cabelo pra trás da nuca e, por alguns
momentos, deixa a mão pousada no pescoço. Ela olha pro lado esquerdo, depois
pra mim, suspira e só então volta a falar.
“Há
umas duas ou três semanas tu ia começar um tratamento intensivo lá na clínica
do centro, tinha que ser internada. Lembro que me ligou dizendo que falou pro
teu namorado esquisito que ia visitar nossa mãe e que caso ele comentasse
qualquer coisa comigo era pra eu confirmar. Tu deve ter feito isso só pra se
garantir porque ele não ia falar comigo mesmo, só quem dá atenção pra ele é
aquela velha. De qualquer forma, aquela foi a última vez que falei contigo
antes de você sumir.”
Desde
que ela começou a falar, senti que a ansiedade e a angústia iriam fazer
desaparecer o que restava de mim. Meu coração bate em desespero. Não consigo
parar de pensar no que a gente possa ter feito pra eu ter que recorrer a esse
tipo de tratamento. Não consigo parar de pensar no que eu possa ter feito.
Decidida,
eu puxo a mão dela mais uma vez. Sublinho a frase “o que a gente fez?”. Ela diz que não pode falar, que é pra eu
esquecer. Escrevo embaixo “Me fala”. Nada. Agora com mais força, volto
a sublinhar a frase “o que a gente fez?”.
Ela puxa a mão e eu ouço o ruído surdo da sua pele se rasgando sob a ponta da
caneta. Com a outra mão, ela pressiona o ferimento. Mais uma vez a ouço
chorando. Ela está virada para a janela.
“O
nosso pai, Melissa, o nosso pai. E não é só ele, sabe, mas eu prometi que não
ia te falar. Para com isso, por favor. Você tá ficando paranoica de novo, porque
simplesmente não para?”
A
voz de Patrícia se tornava cada vez mais embargada conforme ela tentava falar,
de modo que quase não consegui entender as últimas palavras. Assim que compreendi
o sentido do que ela disse, vi a caneta caindo como pena no tapete fofo. Não podia
mais segurá-la; na extensão do meu braço resta apenas o pedaço inútil de carne
que é a palma sem os dedos.
No reflexo do espelho percebo que há algo de
estranho com meu rosto também. Decido olhar mais de perto, mas ao colocar o pé
no chão meu corpo tomba pra frente e eu caio. Minha perna esquerda sumiu. Ouço
Patrícia gritar meu nome, mas não ouço seus passos vindo em minha direção; ela
permanece parada. Depois de algumas tentativas, consigo colocar meu corpo em pé
novamente.
Ao
me aproximar do espelho percebo que meu rosto se reduziu a uma massa branca e
disforme. Não há mais cabelo, não há mais boca, não há mais nariz. Somente meus
olhos não me abandonaram. No reflexo noto que a parede antes branca agora está
coberta por um papel amarelado. Eu me desequilibro em cima da minha única perna
e caio novamente. Para me proteger da queda, avanço a palma da minha mão à
frente do meu corpo e sinto-a tocar em algo que parece úmido e pegajoso como
mofo. Um cheiro de madeira, vômito e flores mortas inunda o ambiente. É nesse
momento que percebo que Patrícia sumiu.
Mais uma vez eu estou sozinha.
Ergo
meus olhos e vejo a moldura branca do espelho se contorcer até se transformar
em uma mesa velha de carvalho. Um brilho de metal assalta minha mente e eu
fecho os olhos, deixando minha cabeça cair sobre aquela umidade que, descobri
pelo cheiro, era vômito embolorado no tapete. Sinto uma dor insuportável, como
se alguém pregasse uma estaca na minha testa e outra na minha nuca.
Alguns
instantes depois, torno a abrir os olhos e percebo que meus dedos, mãos,
pernas, cabelos, nariz, boca e voz voltaram. Meu corpo está inteiro novamente,
mas nunca me senti tão despedaçada. A casa, que só há pouco eu começara a me
habituar, já não era mais a mesma.
Ao
longe ouço uma voz.
“Melissa,
meu bem, já terminou o banho?”