quarta-feira, 28 de junho de 2017

14. Outra Vez - Por Amanda C. Nunes


 

            Suas palavras me congelam. Uma raiva começa a crescer no centro do meu peito, me dominando. Bruxa. Bruxa, bruxa. A raiva dominava meu corpo e me enjoava. Seu rosto se tornou em um borrão desfigurado.

            Eu não quero mais ouvir, sua voz se torna um som horrendo em meus ouvidos. Não quero mais ficar em sua casa. Minhas memórias estavam voltando. A dor era excruciante, quebrando minha cabeça de dentro para fora. Vejo sua mão se aproximar de mim, como se tentasse me ajudar. Me afasto dela rápido e vou embora correndo o mais rápido que conseguia. Bruxa.

            Na rua está quente. O sol bate no topo da minha cabeça me deixando tonta. Mas não paro de correr, quero me afastar o máximo possível da casa de Clarisse. É quando escuto meu nome. Olho em volta, mas não vejo ninguém perto de mim. Talvez sejam meus ouvidos me enganando ou o próprio vento me mandando parar. Mas escuto de novo. Reconheço a voz de Pat. Ela corre até mim, a princípio como um borrão, mas criando forma cada vez que se aproximava mais. Seu cabelo tem mechas molhadas e ela está sem fôlego quando finalmente me alcança.

            "Estava procurando você. Por toda a parte. Melissa, você precisa voltar."

            "Voltar?!” Não. “Eu não vou voltar."

            "Você já se lembrou de tudo, não é? Melissa, você realmente quer manter essas lembranças?"

            "Eu não as quero. Eu não as quero. Mas não vou me esquecer delas."

            "Volte comigo, Melissa. Vamos passar por essa, juntas."

            "Não. Você não sabe. Não sabe como é se esquecer. Os remédios nunca fizeram efeito em você."

            "Eu queria esquecer."

            Aquilo estava errado. Tudo estava errado.

            "Então porque não chamamos ninguém?" Bato forte contra o ombro de Pat,    "Poderíamos ter chamado alguém. Era o que deveríamos ter feito." Bato novamente em seu ombro. Minha mão começa a desaparecer, lentamente, da ponta dos dedos em direção à palma.

            Pat olha nos meus olhos. "Onde você vai agora?"

            Ela me segura forte pelos ombros, se rejeitando a me soltar. A compreensão pesa.

            "Você foi a primeira." Olho bem no fundo de seus olhos. Pat não discorda. "A primeira a conseguir."

            Me viro e saio correndo

            "Aonde você pensa que vai agora?"

            Continuo em frente. Sem voltar ou olhar para trás. Estava tudo errado. Não quero que termine desse jeito. Sob meus pés, o chão fica mais escuro. O asfalto se torna grama e as casas se transformam em árvores altas. O ar se torna mais frio e o sol não bate mais na minha cabeça.  Minhas mãos são pequenas e estão sujas de doce, não, sujas de chocolate. Ainda estou correndo. Uma pequena Pat corre em minha frente. Paro. Não. Dou meia volta e deixo Pat e Carlinhos para trás. O lago é grande e fundo. Suas águas são de um azul escuro. Pulo do píer quebrado para a água. Aos onze anos eu não sabia nadar, mas agora é diferente. Tenho as experiências de vinte e seis anos ao meu lado. Seu corpo está afundando aos poucos. Vejo suas últimas reservas de ar subir para a superfície. Alcanço seu braço. Não vou soltá-lo.

            A carrego para a superfície, em direção ao ar. Consigo puxá-la para a margem, mesmo seu corpo sendo do mesmo peso que o meu. Gisele está gelada, seu vestido branco se tornou bege. Ela não está respirando. Minhas mãos tremem, e por alguns segundos fico perdida no que fazer. As memórias de quando estava na faculdade de jornalismo chegam quando preciso delas. Lembranças de como fazer os primeiros socorros em alguém afogado.

            Pressiono seu peito. Uma. Duas. Três. "Respire, Gisele. Vamos lá, respire." Sopro ar para dentro de seus pulmões tapando seu nariz. "Por favor. Acorde." Um. Dois. Três. "Me desculpe. Por tudo que fizemos com você. Todos nós nos arrependemos. Nunca mais vou fazer nenhum mal a você. Vou protegê-la de agora em diante. Por favor, acorde." Vou cuidar de você, eu prometo. "Por favor. Gisele. Respire." Minha visão fica borrada, as lágrimas corriam pelo meu rosto como a correnteza de um rio.

            Eu não sou mais a mesma Melissa. Eu nunca vou voltar a ser aquela Melissa. Eu não quero ser aquela Melissa. Por favor. Por favor. "Respire."

            Seu corpo se joga involuntariamente para frente e ela cospe para fora muita água, mas mesmo assim não acorda.

            "Melissa!"

            Pat, com Carlinhos mais atrás, chegam até o lado do lago em que eu e Gisele estávamos.

            "Por que você veio para cá?"

            Olho em seus olhos. Eles estão diferentes. Sorrio

            "Você me seguiu." Gisele começa a recobrar a consciência. Me levanto e toco no ombro de Pat. "Você sabe o que fazer."

            Eu não vou mais correr, nunca mais.

            Patrícia me olha com uma pequena faísca de irritação, mas concorda. "Carlinhos, me segue." Ele concorda contrariado. Ela era a mais velha, afinal. Mas acha estranho me deixar para trás. Olho para ele e sorrio. "Tchau, Carlinhos."

            Gisele levanta lentamente. Ela se assusta comigo. Seus olhos, de um castanho claro, espelham pedras âmbar. Gisele não era estranha, ela só era bonita. “Não precisa se assustar. Eu voltei para te ajudar."

            Suas mãos correm para o vestido. "Meu deus. Preciso voltar." Gisele encontra buracos onde o tecido tinha se prendido no píer. "Ah não... O vestido deles está destruído." Sua voz trazia pequenos traços de medo.

            "Você não precisa voltar se não quiser. Pode vir comigo e se secar na minha casa."

            "Não posso. Ou vai ser muito pior quando eu voltar." Ela me dá as costas e segue para a estrada que levaria de volta para as casas. Seus passos são curtos e lentos, como se tentasse adiar a caminhada o máximo possível. Minhas palavras saem antes mesmo que eu perceba.

            "Então eu vou com você."

            "O quê?"

            "Sem problemas, só vou te acompanhar até a entrada." Sorrio de leve para ela. "Não vou inventar nada, só quero acompanhar você."

            Gisele me olha por alguns segundos, tentando acreditar nas minhas palavras, considerando todos os eventos anteriores.

            "Acho que até a porta não tem problema."

            Ela vai na frente a princípio, mas à medida que avançamos ela me permite andar ao seu lado. Quanto mais perto chegávamos de sua casa mais lentamente Gisele caminhava. Quando paramos na porta da frente ela tinha congelado totalmente. Pego em sua mão e dou um passo à frente.

            "Não se preocupe. Eu não vou soltar a sua mão."

            Eu bato na porta trancada. Estamos as duas molhadas e tremendo de frio. A porta se abre com um rangido demorado. Gisele aperta forte minha mão. Um homem com olhos escuros abre a porta. Ele é alto e tem um sorriso largo e assustador.

            "Entrem, meninas."

 

terça-feira, 20 de junho de 2017

13. O dia que não deve ser lembrado - Por Raquel Soares


 

                Meu estômago está embrulhado e o meu coração descompassado. A espera é uma tortura. Estou tão perto das respostas, mas ainda assim me sinto insegura. E se eu não gostar do que ouvir? E se eu começar a desaparecer de novo? Não quero voltar ainda mais nas minhas memórias, não quero mais pular no tempo. Penso em Pat. Ela provavelmente está me procurando nesse exato momento junto com os meus pais. Preciso ser rápida, não posso ser levada para aquela clínica de novo.

                As horas vão passando que nem uma tartaruga numa corrida de kart. Minhas pálpebras ficam pesadas, eu preciso descansar. Apago ali mesmo, no banco de espera do cartório.


“Melissa, me escuta.”

“Não, Carlinhos, eu não aguento mais.”

“Tu precisa voltar pra clínica, é o melhor pra ti.”

“Não acredito que tá fazendo isso.”

“Se tu não for agora vou ligar pros teus pais.”

“Por favor, me deixa fugir contigo.”

“Tá louca, Melissa? Não posso te levar, tu tem que voltar pro tratamento isso sim.”

“Eu não quero, não posso. Eu me esqueci de tudo sabia? Entrei em colapso.”

“Mas tá de volta, firme e forte.”

“E por quanto tempo? Me diz?”

“Não sei Mel, mas o que tu queria? É experimental, vai ter erros, tu querendo ou não.”

“Não se trata mais dos erros Carlos, se trata de mim. Já parou pra pensar que eu não quero mais esquecer sobre o dia 25?”

“Não fala merda, Melissa, não começa com isso de novo.”

“Carlinhos, se tu me ama precisa me ajudar.”

“Não fode, Melissa, tem noção do que está em jogo aqui?”

“Por favor, eu preciso...”

“Tenho que desligar.”

“Não, espera!”

“Volta pra clínica Mel, só volta pra porra da clínica.”

“Carlinhos...”


                Acordo num pulo, com uma mão pequena me balançando o ombro. É Clarisse. Ela está parada de pé do meu lado, com o seu vestido preto fúnebre e o seu olhar gentil. Limpo a baba que escorre pelo canto da minha boca e me endireito no assento. Teria sido aquilo uma lembrança perdida?


“Dormi por muito tempo?”

“Talvez só um pouquinho. Teve um pesadelo, querida?”

“Não tenho certeza se estava sonhando.”

“Hm.”

“O teu turno já acabou?”

“Acabou sim, querida.”

“Que bom, agora desembucha. A senhora me prometeu respostas.”

“Não aqui, não é seguro.”

“Onde então?”

“Vamos até a minha casa.”


                A senhora sai caminhando na minha frente e eu me levanto rápido para não ficar para trás. O céu está escurecendo e posso ver a lua, quase transparente, surgindo no horizonte, anunciando a chegada da noite. Clarisse não disse uma só palavra durante o percurso até sua casa. Devia chamá-la de tia, mas não me sinto confortável para isso. Sua voz e o seu nome naqueles papéis me trazem um gosto fedorento na boca. Não sei se posso confiar nela. Ela pode me levar às respostas e me trazer de volta a lembrança do dia 25 de outubro de 2000, porém posso estar caminhando direto para uma armadilha. Tenho que arriscar, afinal agora é tudo ou nada.

                Chegando na casa, Clarisse busca por suas chaves na bolsa para poder abrir o portão. Ela remexe, remexe e remexe naquela coisa enorme e marrom, fazendo inúmeros barulhos até finalmente achar as chaves. Abre o portão com cuidado e faz sinal para que eu entre. Ando em direção à porta da casa sem esperar pela dona. É uma porta grande de madeira toda entalhada e lustrosa. O cheiro de verniz faz meu cérebro girar em 180º graus. Sinto que vou divagar em uma lembrança, mas alarme falso. Nada acontece. A senhora se esgueira por trás de mim e abre a porta.

“Feche depois de entrar.”

Obedeço silenciosamente. A casa por dentro parece uma loja de antiguidades. Não sei por que, mas acho que gosto de coisas vintage. Fico apaixonada pela coleção de louças adornadas, elas tomam conta de um gigante armário em forma de “u” que circunda uma televisão de tamanho mediano. Sinto que já estive ali antes.


“Sente na poltrona, vou preparar um chá para nós”.

“Não sei se posso sentar nela.”

“José não mora mais aqui, Melissa. Não tem com o que se preocupar.”

 
                José dos Santos Amado. Outro nome da lista. As peças do quebra-cabeça continuam aparecendo, mas não consigo juntá-las. É um emaranhando de informações que fazem sentido e ao mesmo tempo me deixam ainda mais confusa.

 
“Aqui está, o seu favorito: chá de hortelã.”

“Não sabia que tinha preferência.”

“Tu e a Pat sempre vinham lanchar na minha casa, lembra? Tu sempre pedia pelo chá de hortelã e a Pat o de camomila.”

“Não lembro, desculpa.”

“Entendo.”

“Vamos ao que interessa: o que aconteceu no meu aniversário de 11 anos?”

“Bom tudo começou quando a minha sobrinha veio morar comigo.”

“Sobrinha?”

“Sim, seu nome era...”

“Gisele.”

“Isso. Enfim, ela nunca foi uma garota normal, nunca teve amigos e passava a maior parte do seu tempo jogando pedras no lago. Tu, a Pat e o Carlinhos vivam implicando com ela. Todo dia ela voltava pra casa chorando e com a roupa completamente suja. Nunca dei muita bola, dizia pra ela que era culpa dela, afinal quem mandou ser tão esquisita?

 
Meu namorado José gostava dela. Gostava até demais. Não me dava atenção, só queria saber de Gisele. Passei a odiá-la por isso e odiar a minha irmã por ter deixado esse embuste na minha casa. Naquele ano, quando chegou o dia 25 de outubro, tu não quis saber de festa. Só queria um bolo de chocolate e uma bicicleta nova para andar com a Pat e o Carlinhos pela rua. Seus pais sempre te davam tudo, assim sendo tu acabou ganhando o que pediu.”


“Pegamos o bolo, as bicicletas e sentamos na calçada.”

“Gisele escolheu um péssimo dia para sair de casa, pobre menina.”

“Não, não, não.”

“A verdade e a lembrança doem não é mesmo?”

“Para.”

“Ela só estava indo para o lago como sempre fazia.”

“Para.”

“Mas vocês não resistiram à tentação. Tacaram bolo em seu vestido branco e quando ela correu foram atrás. Podiam ter deixado para lá.”

“Por favor, para.”

“Seus pés estavam escorregadios por causa do bolo e o píer já não era tão firme. Podiam ter salvado ela, mas ao invés disso fugiram.”

“EU DISSE PARA!” gritei jogando a xícara de chá no chão. O som da porcelana estilhaçando fez o meu ouvido doer.

“Diga-me, Melissa, a santa ainda te assombra?”

sexta-feira, 16 de junho de 2017

12. Fichas - Por Matheus Pchara



Busco respostas em nomes sem perguntas, afinal quem seria Carlos Carneiro Amadeu (ou Carlinhos Carneiro)? E quais são as ligações com essa data, o que ocorreu no dia 25 de outubro de 2000? Não, espera um instante, algo está diferente. Eu não consigo reconciliar minha mente para o ano 2000, mas o dia 25 de outubro me tem um gosto familiar, um gosto doce e confortante ao mesmo tempo pútrido e amargo. Penso em voltar para casa, mas sinto que vão descobrir onde estou com a Pat, dando com a língua nos dentes. Me pego refletindo sobre como eu iria achar uma data tão especifica, onde haveria informações que não se podem apagar. Penso num centro de polícia, talvez eles possuam a minha ficha (ela estando limpa ou não). Mas se meus pais mantêm essa clínica às escondidas, é provável que eles tenham contato dentro da polícia que impeça uma investigação. Se um taxista sabe dos “boatos” sobre a clínica, a cidade inteira provavelmente sabe, pois os taxistas movimentam muita informação de passageiro para passageiro. E mesmo assim nada de buscar a verdade por traz do boato. Ou até tenham procurado e não encontraram nada. Tudo isso soa muito estranho em minha cabeça, mas nada mais estranho que essa data, esse dia e esse mês.

                Resolvo ir ao cartório, pois acho que dificilmente meus dados estejam corrompidos ou apagados. Mas afinal, onde ficaria o cartório? Numa cidade tão grande, na qual não lembro nem de seus pontos turísticos, me pego sem rumo. Perguntar por informação é o que me resta, já que o dinheiro que eu tenho no bolso já está ficando escasso e pedir um táxi é uma facada que quero evitar. Pergunto onde fica o cartório, e descubro que é bem perto donde estou. Posso seguir a pé (só tomara que não notem que estou dopada... e tomara que estar dopada não me atrapalhe). Uma senhora muito gentil me fala que fica ao lado do “Tudo Fácil”, e sinceramente acho que não devem ter muitos prédios com esse nome por aí.


                Após uma hora, percebo que os efeitos daquilo que injetaram em mim já haviam passado. Chegando ao cartório, me dirijo ao atendente com um rosto meio sonolento.

“Com licença, senhor, eu vim busc....”

                Ele me interrompe com um dedo apontando um letreiro sobre mim.

“Tu é quem possui a ficha 73?”

“Não, mas eu preciso falar com urgên...”

“Tu é de idade avançada, possui criança de colo ou alguma limitação?”

“Não...”

“Então retire uma ficha e espere sua vez. Todos aqui estão aguardando e tu não deve ser melhor do que ninguém aqui para ter um atendimento especial!”

                Ele foi meio grosso, muito grosso na verdade. Mas eu tinha que esperar na fila mesmo, ele estava certo nesse sentido. E com isso acabo procurando onde retiro minha ficha. Sou a 78, não tem tantas pessoas assim na minha frente, o que me alivia muito. Pode parecer que estou apressada, mesmo sem possuir um compromisso, mas quem não estaria com pressa de saber a verdade por trás de tudo. O tempo voa, a ansiedade aumenta e os roncos do senhor sentado ao meu lado ampliam gradativamente (e os arrotos que ele solta periodicamente me embrulham cada vez mais), até que finalmente chega o ficha... Do senhor, ele é o 77. Não sabia se ficava aliviada ou não por finalmente me livrar da sua sinfonia.

Chegando a minha vez, me dirijo ao balcão do atendente grosso.

“O que seria para você, senhora?”

“Eu gostaria de buscar minhas informações.”

“Ta senhora, você tem alguma certidão sua presente? Alguma identificação?”

Faço apenas um “não” com o balançar da cabeça.

“Senhora, você complica meu trabalho assim.”

                Eu fico nervosa, não sei se de raiva ou de medo de não conseguir nada.

“Não teria outra forma de buscar, eu tenho meu nome e...”

                A atendente ao lado interrompe-me agora, mas ela faz isso de forma sutil.

“Pode passar comigo, Melissa, irei te informar tudo que você precisar.”

                Meu coração acelera, e por algum motivo tenho vontade de correr porta afora. Como essa senhora de idade sabe meu nome? Como ela se lembra de mim? E, principalmente, como ela pode me informar tudo que eu preciso?

                Atordoada e sem saber o que fazer, acabo seguindo o que sua voz fala. Aproximo-me do balcão dela.

“Como você sabe meu nome? Desculpa-me, senhora, mas não me lembro do seu rosto, só de sua voz. Por acaso já conversamos antes?”

“Claro, minha querida, sou eu, a tia Clarisse, aquela que cuidava dos cachorros na rua, sua antiga vizinha que te oferecia doces sempre que passava na frente da minha casa no caminho de volta da escola.”

                Clarisse, esse nome me é familiar assim como a voz, mas algo não soa bem nessa história. Agora que me lembro, havia uma Clarisse em meio à papelada das pessoas presentes no meu caso.

“Senhora, o que acontece de tão diferente no dia 25 de outubro?”

                A senhora com seu mais gentil sorriso me responde.

“É a data do seu aniversario, minha querida. 25 de outubro de 1989.”

                A resposta bate em mim, mas não sinto mais. O impacto pela adrenalina de estar chegando próximo a algo me faz ignorar o fato de finalmente saber quantos anos eu tenho.

“O que aconteceu no meu aniversario de 11 anos?”

                A senhora se transforma nesse momento: seu sorriso gentil se torna o fundo do oceano, seus olhos arregalam e ela parece se engasgar com o próprio ar com o pavor que minhas palavras semeiam sobre ela.

“Então é verdade que você não se lembra de nada, pensei que fosse uma brincadeira em longo prazo?”

“Que tipo de brincadeira envolveria algo tão sério como perder as memórias de tudo e todos?”

“Tem razão, eu quis aceitar que aquilo era apenas uma brincadeira, que o seu sumiço tinha sido por causa do intercâmbio em que os seus pais a puseram. Tudo bem, irei lhe contar tudo que você quiser saber, mas aviso que talvez venha a machucar. Também gostaria de contar outra hora, estou no horário de serviço e tenho outras pessoas a atender.”

                Ouço-a resmungar consigo mesma “o que o Carlos vai pensar disso...”

                Faço apenas um “sim” com a cabeça e volto a me sentar nos bancos. Aguardo mais uma ficha passar, mais uma fila de fichas para a verdade.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

11 - Eventos do dia 25 - Por Ísis Falcão



“Qual o nome deles? Merda, eu não lembro nem o nome dos nossos próprios pais! Qual o nome dessa maldita clínica, Pat? Qual o novo endereço?”

“Calma, Melissa. Eles se chamam Vivian e César. A Clínica Oblivion fica na Avenida Nilo Peçanha, número 1800, agora. Mas acho melhor tu não ir lá de novo… Droga, eu nem deveria estar te falando isso.”

“Eu nem lembro da última vez que eu fui lá, Pat. Tô indo pra lá. Depois nos falamos.”

“Melissa, espera!”


            Desliguei o telefone antes que Pat tentasse me convencer de alguma outra coisa. Eu precisava de respostas, pra ontem. Tinha uma bolsa pendurada do lado da porta, não sei se era minha ou de Pat, mas encontrei uma carteira dentro dela com algumas notas de dinheiro. Peguei e as pus no bolso, saí da casa e caminhei até uma rua mais movimentada, e fiz sinal para o primeiro táxi vazio que passou por ali. Dei o endereço da maldita Clínica Oblivion para o taxista, um senhor de idade com bigode.

 

“O senhor já ouviu falar sobre essa clínica?”

“A Oblivion? Hum… Já ouvi alguns boatos sobre ela, que fazem experiências em humanos ou algo do tipo. Nem sei exatamente o ramo deles, mas sei que é algo meio esquisito.”

 

            Assenti após o comentário do senhor, e fiquei matutando sobre que tipo de pais eu tinha. Chegando ao endereço, paguei o taxista e desci do veículo, me deparando com um prédio gigante, todo de vidro, que passava um ar de luxo e profissionalismo. Um letreiro preto acima da entrada com portas giratórias denominava o lugar: “OBLIVION”. Passei pelas portas e encontrei uma moça bronzeada e de cabelos quase brancos de tão platinados. Ela me encarava com os olhos saltados, e uma plaquinha em cima da mesa dizia que seu nome era Samira. Seu rosto me era familiar.

 

“Senhorita Melissa, o que te trouxe aqui? Algo errado?”

“Eu quero falar com a Vivian e o César, meus pais, agora.”

“Tem certeza? Sem querer me meter, mas acho que isso não faria bem pro teu tratamento.”

“Como que ver meus pais poderia me fazer mal? Eu quero vê-los agora.”

 Samira discou um ramal.

“Vivian? Melissa está aqui. Ela quer muito falar com vocês… Certo, sem problema.”

“E então?”

“Max vai te acompanhar até a sala da Vivian e do César, Melissa.”

 

            Senti alguém chegando por trás, me virei e vi um homem forte e alto se aproximando de mim. Ele meneou a cabeça em direção ao elevador na outra ponta do hall, e eu segui naquela direção. As portas se abriram e entramos. Quando pensei em perguntar alguma coisa para o tal de Max, senti uma picada gelada no meu pescoço, meu corpo amoleceu instantaneamente, e minha visão escureceu.

 

            Acordei em uma cadeira acolchoada numa sala escura com luzes baixas, e meus pais à minha frente,

 

“Melissa, querida, como se sente?”, minha mãe perguntou.

            Eu queria gritar de raiva, mas me sentia mansa como uma gatinha.

“Furiosa. Por que me medicaram à força? Mesmo que eu tenha aceitado participar desse tratamento idiota, tô fora. Eu quero lembrar de tudo, nunca mais quero sumir, ou saltar no tempo.”

“Saltar no tempo? Sério? Isso é incrível, querida. É a segunda paciente a apresentar esse sintoma. É um mecanismo de defesa do teu cérebro que te impede de lembrar demais. Para isso, ele pode quebrar a linearidade temporal. Entretanto, o certo seria que após esse salto tua memória limpasse novamente. Tu não deverias ser capaz de acumular memórias enquanto transita entre camadas do tempo”, meu pai dizia com os olhos arregalados.

“Nada disso me interessa. Não quero mais viver nesse filme de ficção científica. Quero lembrar de tudo e ir para o presente, seja lá quando ele seja.”

“Pat errou em te dizer sobre nós. Ainda bem que ela nos avisou.”, meu pai disse com um olhar de decepção que me parecia familiar.

“Melissa, querida, tu assinou uma série de contratos antes de começar o tratamento. Esse foi o primeiro, em que tu aceita todos os efeitos colaterais desde que nunca se lembre dos eventos do dia 25 de outubro de 2000.”

 

            Ela me mostrou a página com a minha assinatura, “Melissa Souza”. Meu pai estava lentamente dando a volta na cadeira em que estou, com outra seringa na mão. Chega de seringas e medicamentos. Reúno todas as forças que encontro no meu corpo - agora pesado - e me jogo no chão, caindo por cima das pernas da minha mãe e a levando junto comigo. Arranco as folhas do contrato estúpido que ela tinha na mão e engatinho o mais rápido possível em direção à porta, que por sorte estava aberta.

 

            O corredor tinha iluminação forte e o alarme de emergência ecoava nos meus ouvidos, me levantei apoiando-me na parede e fiz o mais próximo possível de uma corrida até o que me parecia ser a direção da saída. Havia uma porta metálica no fundo do corredor, e me joguei até ela. Estava em uma escada de emergência, que acompanhava a parede dos fundos do prédio até o chão. Desci aos tropeços e caí de quatro na calçada.

 

            Apesar de tudo, foi fácil demais fugir. Meu pai deve ter ficado socorrendo minha mãe - compreensível - mas definitivamente eles precisavam de novos seguranças, já que uma mulher dopada conseguiu escapar dali facilmente. Acho que o déjà vu daqueles corredores e de onde era saída talvez tenham me ajudado um pouco. Não sei dizer se já havia tentado fugir daquele lugar inóspito algumas outras vezes.

 

            Passada essa reflexão, olhei os papéis amassados em minhas mãos. Vários protocolos que certamente leria com mais atenção depois, mas uma lista me chamou atenção: uma lista com os nomes de “pessoas cientes dos eventos ocorridos no dia 25 de outubro de 2000 que ignoram a existência do tratamento de Melissa Souza”.

           

Clarisse Albuquerque

            José dos Santos Amado

            Carlos Carneiro Amadeu

 

            Os primeiros nomes me soaram meramente familiares, mas o nome de Carlos, ou Carlinhos, obviamente, me chamou atenção. Eu precisava achar esse homem, seja lá onde ele estivesse. E seja lá o que ele soubesse, eu também precisava saber.