Posso sentir o tremor das mãos de Gisele subir por toda a extensão
dos meus braços. Tento dar o primeiro passo em direção a soleira da porta, mas
a força que ela exerce, inconscientemente, me barra os movimentos. Aquele
sorriso era realmente assustador, mas não consigo entender o motivo de
sentirmos tamanho pavor diante daquele homem; era José, namorado da Clarisse.
Lembro que não gostamos dele, mas o motivo me foge. O que ele teria feito de tão
ruim para causar tal reação?
Interrompendo meus pensamentos, percebo sua mão nas costas de Gisele.
“Anjo, o que
houve que está toda molhada? Entra e me conta. ”
Anjo? A voz era familiar e o tom malicioso. Grotesco também. Mas
agora tudo se mistura em minha cabeça. Porque eu sinto que salvei a vida dela,
se ela me olha como se fosse melhor ter deixado ela lá, se afogando?
Tento me lembrar da conversa que tive com Clarisse, ela me disse que
ele não estava mais lá quando hesitei em sentar na poltrona, e por que hesitei?
Lembro somente da repulsa em deixar minha pele entrar em contato com aquele
couro amarelado, mas ainda não sei o que aconteceu. Minha cabeça dói, meus
olhos estão embaçados. As memórias voltaram juntas. Não consigo alinhar o que
acontecia ontem com as novas memórias infantis adquiridas recentemente.
Enquanto José leva Gisele, estarrecida, para dentro, olho o meu reflexo no
espelho atrás da porta, tenho 11 anos e todas as minhas memórias adultas estão
aqui, sinto um formigamento nas mãos, essa sensação de que não acabou aqui não
vai embora. Decido ir atrás de Pat e Carlinhos. Quando estou prestes e sair
pela porta, a qual foi difícil atravessar, olho para trás e vejo nos olhos de
Gisele uma expressão que nunca, mesmo se eu perder novamente a memória, poderei
esquecer.
“Tu acabou com
a minha vida! ”
Sinto um arrepio. Acabei? Eu salvei a vida dela! Deve ser por isso
que achamos ela tão estranha.
Enquanto tento
formular uma resposta, ouço a voz de José:
“Obrigada, Mel,
por trazer o anjo de volta”
Meu coração parece saltar do
peito, as cenas daquela figura aterrorizante começam a voltar, mas é tudo tão
nebuloso que nada faz sentido. Corro cada vez mais rápido e penso que Pat e
Carlinhos não podem me ajudar. Se alguém pode me explicar são meus pais. Paro
antes da esquina da farmácia do seu Nestor para tomar fôlego, logo me lembro
que, se tenho 11 anos, e a Gisele está salva, não deve existir laboratório e
ele estão em casa. Dobro a rua rapidamente e avisto a fachada amarela. Parece
ter alguém em casa, as janelas não ficariam abertas assim com a mania de
perseguição da minha mãe. Abro a porta da sala e meus pais estão sentados em
nossa mesa de jantar. Sinto novamente o coração acelerado e o formigamento nas
mãos: eles estão de jaleco branco e seguram taças como se estivessem brindando
a descoberta de algo. Quando percebem minha presença, ficam pálidos
imediatamente. Minha mãe deixa a taça cair no chão e o barulho dos cacos ecoa
na sala.
“O que tu fez,
Melissa?”
A voz de meu pai soa quase irreconhecível.
“Eu não
entendo, fiz o que devíamos ter feito da primeira vez. Salvei a Gisele.”
Minha mãe cai sobre as pernas e permanece no chão.
“Eu sabia que
isso acontecer, eu avisei!”
“Mãe, me
explica o que está acontecendo. Por que tu tá vestida assim, por que a Gisele
disse que eu acabei com a vida dela? ”
“Por que tu
acabou mesmo. Tu achou que poderia alterar os acontecimentos da linha do tempo
assim, sem consequências? ”
Começo a suar frio e sinto a ponta dos meus dedos desaparecendo.
“Quais
consequências? ”
“Tu não lembra
o que o ele fazia com ela, Melissa? Ela teve que morrer naquele dia pra que ele
fizesse o que fez. ”
Nesse momento
as imagens que estavam borradas começaram a voltar e eu vejo nitidamente a
poltrona de couro amarelada e alguém sentado nela, mas a pessoa está imóvel e
há sangue escorrendo pelos dedos.
“Agora que ela
voltou, ele não tem porque ter “ido embora”, Melissa. ”
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