quinta-feira, 6 de julho de 2017

15. Mancha de sangue, em couro, não sai – Por Camila Mello


Posso sentir o tremor das mãos de Gisele subir por toda a extensão dos meus braços. Tento dar o primeiro passo em direção a soleira da porta, mas a força que ela exerce, inconscientemente, me barra os movimentos. Aquele sorriso era realmente assustador, mas não consigo entender o motivo de sentirmos tamanho pavor diante daquele homem; era José, namorado da Clarisse. Lembro que não gostamos dele, mas o motivo me foge. O que ele teria feito de tão ruim para causar tal reação?
Interrompendo meus pensamentos, percebo sua mão nas costas de Gisele.
“Anjo, o que houve que está toda molhada? Entra e me conta. ”
Anjo? A voz era familiar e o tom malicioso. Grotesco também. Mas agora tudo se mistura em minha cabeça. Porque eu sinto que salvei a vida dela, se ela me olha como se fosse melhor ter deixado ela lá, se afogando?
Tento me lembrar da conversa que tive com Clarisse, ela me disse que ele não estava mais lá quando hesitei em sentar na poltrona, e por que hesitei? Lembro somente da repulsa em deixar minha pele entrar em contato com aquele couro amarelado, mas ainda não sei o que aconteceu. Minha cabeça dói, meus olhos estão embaçados. As memórias voltaram juntas. Não consigo alinhar o que acontecia ontem com as novas memórias infantis adquiridas recentemente. Enquanto José leva Gisele, estarrecida, para dentro, olho o meu reflexo no espelho atrás da porta, tenho 11 anos e todas as minhas memórias adultas estão aqui, sinto um formigamento nas mãos, essa sensação de que não acabou aqui não vai embora. Decido ir atrás de Pat e Carlinhos. Quando estou prestes e sair pela porta, a qual foi difícil atravessar, olho para trás e vejo nos olhos de Gisele uma expressão que nunca, mesmo se eu perder novamente a memória, poderei esquecer.
“Tu acabou com a minha vida! ”
Sinto um arrepio. Acabei? Eu salvei a vida dela! Deve ser por isso que achamos ela tão estranha.
Enquanto tento formular uma resposta, ouço a voz de José:
“Obrigada, Mel, por trazer o anjo de volta”
 Meu coração parece saltar do peito, as cenas daquela figura aterrorizante começam a voltar, mas é tudo tão nebuloso que nada faz sentido. Corro cada vez mais rápido e penso que Pat e Carlinhos não podem me ajudar. Se alguém pode me explicar são meus pais. Paro antes da esquina da farmácia do seu Nestor para tomar fôlego, logo me lembro que, se tenho 11 anos, e a Gisele está salva, não deve existir laboratório e ele estão em casa. Dobro a rua rapidamente e avisto a fachada amarela. Parece ter alguém em casa, as janelas não ficariam abertas assim com a mania de perseguição da minha mãe. Abro a porta da sala e meus pais estão sentados em nossa mesa de jantar. Sinto novamente o coração acelerado e o formigamento nas mãos: eles estão de jaleco branco e seguram taças como se estivessem brindando a descoberta de algo. Quando percebem minha presença, ficam pálidos imediatamente. Minha mãe deixa a taça cair no chão e o barulho dos cacos ecoa na sala.
“O que tu fez, Melissa?”
A voz de meu pai soa quase irreconhecível.
“Eu não entendo, fiz o que devíamos ter feito da primeira vez. Salvei a Gisele.”
Minha mãe cai sobre as pernas e permanece no chão.
“Eu sabia que isso acontecer, eu avisei!”
“Mãe, me explica o que está acontecendo. Por que tu tá vestida assim, por que a Gisele disse que eu acabei com a vida dela? ”
“Por que tu acabou mesmo. Tu achou que poderia alterar os acontecimentos da linha do tempo assim, sem consequências? ”
Começo a suar frio e sinto a ponta dos meus dedos desaparecendo.
“Quais consequências? ”
“Tu não lembra o que o ele fazia com ela, Melissa? Ela teve que morrer naquele dia pra que ele fizesse o que fez. ”
Nesse momento as imagens que estavam borradas começaram a voltar e eu vejo nitidamente a poltrona de couro amarelada e alguém sentado nela, mas a pessoa está imóvel e há sangue escorrendo pelos dedos.
“Agora que ela voltou, ele não tem porque ter “ido embora”, Melissa. ”

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