terça-feira, 28 de março de 2017

3. Chaveiro - Por Larissa Anacleto Lopes



 
Chaveiro na mão e a santa rezando. Sinto que estou menos perdida que antes, mas, de qualquer maneira, não sei para onde ir. Percebi no elevador que o prédio tem 10 andares e, só no corredor da vizinha tagarela, tem 5 apartamentos. Posso tentar um por um. Vai levar algum tempo, mas a chave tem de abrir alguma porta.

Decido ir para o primeiro andar. Pego o elevador novamente e me pergunto por que alguém colocaria carpete num espaço tão pequeno, o cheiro é horrível. Quando chego no primeiro andar, vejo dois meninos pequenos brincando no corredor. Um deles olha para mim e abre um sorriso enorme.

“Oi, tia Mel! Sabe de uma coisa? Eu ganhei aquele carrinho que eu queria tanto, tu pode brincar com ele se quiser! Sabe de outra coisa? Minha mãe disse que é feio pedir comida por aí quando a gente tem em casa, mas aquela bolacha que tu tem é tão gostosa, tô até com saudade dela!”

O menino deve ter mais ou menos 10 anos. É muito simpático e, naquele momento, era exatamente de quem eu precisava.

“Ah é, querido? Podemos ir até meu apartamento ver se tem aquela bolacha.”

Convido os dois para me levarem até meu apartamento. Eles ficam bem entusiasmados e logo gritam:

“Quem chegar por último no elevador é a mulher do padre!”

Eu só observo e deixo que os dois conversem animados. Um deles aperta o botão do 8º andar. Que alívio. Mas e se eu não tiver a tal da bolacha? O elevador é velho e lento, mas logo chegamos, e eles  correm na frente, até pararem na porta do 802. Começo de fato a me sentir aliviada, mas é impossível não estar incomodada com a situação. Eu não tenho o controle de nada na minha vida.

Pego as chaves, conto 6 delas. Tento uma por uma e na terceira tentativa consigo abrir a porta. O apartamento não é nem pequeno nem grande, também não me parece tão velho quanto o prédio. A decoração é bonita, mas algo no ambiente me deixa um tanto desconfortável, como se eu não pertencesse ao lugar. A cozinha fica à esquerda da sala, tem um estilo americano, com um balcão que separa os dois ambientes. Vou em direção a um armário de vidro e vejo um pacote de bolacha. Entrego aos meninos que me agradecem e saem correndo.

Finalmente estou sozinha, mas não posso ficar muito. Prometi que voltaria à fotocopiadora. Caminho um pouco pelo apartamento, tenho a impressão de que moro sozinha. Vejo várias fotos espalhadas pelos ambientes, mas não reconheço nenhuma destas pessoas. Entro no quarto. É o único cômodo em que me sinto à vontade. Em cima da cama avisto um quadro muito bonito. Suponho que eu deva gostar de arte. Do lado da cama, há um criado mudo, abro as gavetas e encontro uma agenda. Ao abri-la, encontro vários desenhos muito bem feitos e alguns compromissos anotados. Amanhã tenho de me encontrar às 18h com um tal de Lucas no Café do Porto. Eu não sei quem é Lucas e nem onde fica o Café do Porto. Vou até o banheiro, abro um armário e vejo alguns remédios. Não sei o que fazer e fico me olhando no espelho, tentando gravar a minha imagem: cabelos ruivos um pouco abaixo dos ombros; olhos verdes, mas não muito claros; meu nariz não é feio, mas também não é bonito, um pouco arrebitado demais; tenho várias sardas e não estou usando maquiagem. Olho atentamente e percebo que alguma coisa está errada, uma das minhas orelhas sumiu. Acho que além da perda de memória eu estou alucinando. Por via das dúvidas, ponho o cabelo por cima e saio depressa, porque preciso voltar para a fotocopiadora. Apanho a agenda e a levo comigo.

A fotocopiadora não é longe, umas quatro quadras. Mesmo com o chuvisco, é fácil de ir até lá.

Ao chegar, encontro novamente o Jorge.

“Ô, fotocopiadora, voltou hein? Que é isso, primeiro dia e já atrasada? Só não te demito, porque preciso mesmo de alguém no balcão.”

Ele não parece contente e eu só sei que não sei nada.

“O que eu faço?”

“Quando alguém chegar é só vir até a máquina e apertar os botões assim.”

Ele me mostra rapidamente como se faz uma cópia e manda que só o chame se for um assunto sério. Eu não sei nem o que pode ser um assunto sério o suficiente para chamá-lo. Mas decido obedecer e só aceno com a cabeça.

Toca um sino na porta e entra uma mulher.

“Vocês fazem fotocópias?”

Uma pergunta um tanto quanto óbvia para quem entra numa fotocopiadora. Respondo que sim.

“Então preciso de 100 cópias dessas folhas”

Deixo a máquina trabalhando e começo a folhear a agenda. Aparentemente não vejo nada de muito importante, a não ser algumas consultas médicas. Alguns desenhos chamam minha atenção: um cachorro, uma paisagem e um homem muito bonito.

Continuo sem saber quem sou, ou melhor, quem eu era, pois agora sou fotocopiadora. Ainda esperando as cópias, começo a brincar com as chaves, passando cada uma entre os dedos e observando aquele movimento repetitivo. As chaves vão e vêm, quando de repente caem no chão. Me abaixo para juntar e percebo: meu dedo mínimo não está lá. Não é como se tivesse sido cortado nem nada, só não está lá. Meu coração bate acelerado. Eu confiro, examino, mas não é mesmo alucinação. Parece que, assim como a minha memória, eu estou desaparecendo.

A santa que antes rezava na minha mão, agora está no chão e olha para mim como quem tem piedade.

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