Deixo
a loja minutos mais tarde com um horário para retornar, sem saber meu nome, sem
saber de onde vim e exatamente para onde ir. Continuo andando pela rua
observando tudo, tentando, de qualquer forma, fazer proveito de qualquer
informação. Exausta da caminhada sem rumo, decido sentar em degraus. Fico ali,
parada, de olhos fechados sentindo a chuva fina bater em meu rosto. Penso em
gritar, penso em chorar, penso em rezar, mesmo sem lembrar de qualquer oração
que exista; penso em sair dali, mas nada faço. Permaneço sentada, sentindo os
pingos acumularem e escorrerem por minhas bochechas, desejando fortemente que a
água se transforme em memória.
“Melissa?”
Diz
uma voz quase perto.
Melissa!
Sim, é meu nome.
“Sim,
sou Melissa.”
Digo,
direcionando o olhar para a voz. Me deparo com uma mulher alta, de cabelos
presos e bem vestida. Ela segura um guarda-chuva na mão esquerda e sacolas
pesadas na mão direita. Me encara com um olhar curioso.
“Por
que tu está aí, sentada na chuva?”
“Não
sei. Gosto da chuva.”
A
mulher parece reagir ao que falo de maneira estranha, mas não sei mais, porque
novamente estou de olhos fechados, sentindo a água.
“Quem
sabe tu não me ajuda com essas sacolas? Estão pesadas e, de novo, Antônio me
fez ir ao mercado, sozinha. Bruto! Não me ofereceu ao menos dinheiro para o
táxi.”
Antes
de conseguir compreender uma nova pancada de informações vindas da tal mulher,
ela me segura pelo braço e me faz levantar. Me entrega três ou quatro de suas
sacolas, me puxa para perto, para baixo do guarda-chuva, e começa a andar.
Caminho cambaleando ao seu lado.
“Graças
a Deus te encontrei, sabe? Meus dedos já estavam caindo com tanto peso. Também,
não é fácil carregar o mercado todo. Antônio faz uma lista interminável durante
semanas e, quando finalmente se cansa, me manda sozinha dar conta de seus
pedidos. Não quero parecer mal agradecida, não me entenda mal. Mas se ele ao
menos comparecesse nas horas necessárias, se é que me entende, seria mais
prazeroso atender às suas demandas. É por isso que eu dei umas puladas de cerca
na época da faculdade. Bons tempos.”
Não
sei de quem ela fala, não sei quem ela é. De qualquer forma, sigo caminhando ao
seu lado. Ela parece muito feliz tagarelando sem parar. Gosto de ver ela feliz.
“Ouvi
falar que vão trocar a porta de entrada do nosso prédio. Finalmente, não é
mesmo? Lembro do dia em que tu ficou com a maçaneta na mão depois da milésima
vez que a porta emperrou. Espero que, dessa vez, realmente troquem. Lembra da
ferida que ficou na tua mão?”
Ela
solta uma gargalhada e olha para mim, provavelmente na esperança de que eu
comente sobre o incidente. Olho para minhas mãos, uma de cada vez, em busca de
qualquer ferida, mas não há nada. Sorrio para ela, mesmo sem lembrar de nada e
ela parece aceitar o sorriso como resposta. Finalmente, parece ficar em
silêncio.
Continuamos
caminhando pela rua molhada. Não fazemos muitas voltas e logo chegamos a um
prédio de estrutura alta e antiga. Parece firme, mas de fato tem o aspecto
antigo. Sigo a estranha até a porta do prédio, onde ela junta uma chave
enferrujada com a fechadura ainda mais precária. Forçando a porta para baixo,
finalmente conseguimos entrar. Ficamos caladas no elevador e, por fim, me vejo
parada em frente a uma porta contendo o número 603.
“Melissa,
minha cara, obrigada pela ajuda. Pode deixar que agora dou conta.”
Tirando
as sacolas das minhas mãos, a mulher abre a porta do apartamento.
“Espera,
a senhora poderia...”
“Senhora?
Virgem Maria! Há anos não te vejo me chamando assim. O que andou fazendo?
Bebeu? Fumou? Andou se envolvendo com gente estranha, é? Pois bem, melhor tu
descansar. Alguém aqui ainda precisa dar conta de desfazer todas essas sacolas.
Por Deus, só de pensar já me dá um desânimo.”
“Mas
o que devo fazer? Onde devo descansar?”
“Não
me diga que esqueceu as chaves novamente? Da última vez foi preciso um
profissional para conseguirmos entrar no teu apartamento. Procura melhor, devem
estar na bolsa.”
Diz
ela, desaparecendo para dentro do apartamento. De longe ouço berros da mulher.
“Antônio,
levanta tua bunda daí e ao menos me ajuda a descarregar as coisas que tu mandou
eu comprar.”
E
depois, silêncio.
Fico
sozinha no corredor sombrio que, com o carpete velho e úmido, cheira a cachorro
molhado. Água escorre do teto até encontrar o rodapé. Fico parada, pensando em
como vim parar aqui. De repente, penso nas palavras da estranha. Vasculho a
bolsa que carrego e encontro o molho de chaves. E o chaveiro ali, com a santa,
rezando.

Lindo isso tudo! Belas ilustrações também, Jeremias!
ResponderExcluirParabéns!
Altair