quarta-feira, 28 de junho de 2017

14. Outra Vez - Por Amanda C. Nunes


 

            Suas palavras me congelam. Uma raiva começa a crescer no centro do meu peito, me dominando. Bruxa. Bruxa, bruxa. A raiva dominava meu corpo e me enjoava. Seu rosto se tornou em um borrão desfigurado.

            Eu não quero mais ouvir, sua voz se torna um som horrendo em meus ouvidos. Não quero mais ficar em sua casa. Minhas memórias estavam voltando. A dor era excruciante, quebrando minha cabeça de dentro para fora. Vejo sua mão se aproximar de mim, como se tentasse me ajudar. Me afasto dela rápido e vou embora correndo o mais rápido que conseguia. Bruxa.

            Na rua está quente. O sol bate no topo da minha cabeça me deixando tonta. Mas não paro de correr, quero me afastar o máximo possível da casa de Clarisse. É quando escuto meu nome. Olho em volta, mas não vejo ninguém perto de mim. Talvez sejam meus ouvidos me enganando ou o próprio vento me mandando parar. Mas escuto de novo. Reconheço a voz de Pat. Ela corre até mim, a princípio como um borrão, mas criando forma cada vez que se aproximava mais. Seu cabelo tem mechas molhadas e ela está sem fôlego quando finalmente me alcança.

            "Estava procurando você. Por toda a parte. Melissa, você precisa voltar."

            "Voltar?!” Não. “Eu não vou voltar."

            "Você já se lembrou de tudo, não é? Melissa, você realmente quer manter essas lembranças?"

            "Eu não as quero. Eu não as quero. Mas não vou me esquecer delas."

            "Volte comigo, Melissa. Vamos passar por essa, juntas."

            "Não. Você não sabe. Não sabe como é se esquecer. Os remédios nunca fizeram efeito em você."

            "Eu queria esquecer."

            Aquilo estava errado. Tudo estava errado.

            "Então porque não chamamos ninguém?" Bato forte contra o ombro de Pat,    "Poderíamos ter chamado alguém. Era o que deveríamos ter feito." Bato novamente em seu ombro. Minha mão começa a desaparecer, lentamente, da ponta dos dedos em direção à palma.

            Pat olha nos meus olhos. "Onde você vai agora?"

            Ela me segura forte pelos ombros, se rejeitando a me soltar. A compreensão pesa.

            "Você foi a primeira." Olho bem no fundo de seus olhos. Pat não discorda. "A primeira a conseguir."

            Me viro e saio correndo

            "Aonde você pensa que vai agora?"

            Continuo em frente. Sem voltar ou olhar para trás. Estava tudo errado. Não quero que termine desse jeito. Sob meus pés, o chão fica mais escuro. O asfalto se torna grama e as casas se transformam em árvores altas. O ar se torna mais frio e o sol não bate mais na minha cabeça.  Minhas mãos são pequenas e estão sujas de doce, não, sujas de chocolate. Ainda estou correndo. Uma pequena Pat corre em minha frente. Paro. Não. Dou meia volta e deixo Pat e Carlinhos para trás. O lago é grande e fundo. Suas águas são de um azul escuro. Pulo do píer quebrado para a água. Aos onze anos eu não sabia nadar, mas agora é diferente. Tenho as experiências de vinte e seis anos ao meu lado. Seu corpo está afundando aos poucos. Vejo suas últimas reservas de ar subir para a superfície. Alcanço seu braço. Não vou soltá-lo.

            A carrego para a superfície, em direção ao ar. Consigo puxá-la para a margem, mesmo seu corpo sendo do mesmo peso que o meu. Gisele está gelada, seu vestido branco se tornou bege. Ela não está respirando. Minhas mãos tremem, e por alguns segundos fico perdida no que fazer. As memórias de quando estava na faculdade de jornalismo chegam quando preciso delas. Lembranças de como fazer os primeiros socorros em alguém afogado.

            Pressiono seu peito. Uma. Duas. Três. "Respire, Gisele. Vamos lá, respire." Sopro ar para dentro de seus pulmões tapando seu nariz. "Por favor. Acorde." Um. Dois. Três. "Me desculpe. Por tudo que fizemos com você. Todos nós nos arrependemos. Nunca mais vou fazer nenhum mal a você. Vou protegê-la de agora em diante. Por favor, acorde." Vou cuidar de você, eu prometo. "Por favor. Gisele. Respire." Minha visão fica borrada, as lágrimas corriam pelo meu rosto como a correnteza de um rio.

            Eu não sou mais a mesma Melissa. Eu nunca vou voltar a ser aquela Melissa. Eu não quero ser aquela Melissa. Por favor. Por favor. "Respire."

            Seu corpo se joga involuntariamente para frente e ela cospe para fora muita água, mas mesmo assim não acorda.

            "Melissa!"

            Pat, com Carlinhos mais atrás, chegam até o lado do lago em que eu e Gisele estávamos.

            "Por que você veio para cá?"

            Olho em seus olhos. Eles estão diferentes. Sorrio

            "Você me seguiu." Gisele começa a recobrar a consciência. Me levanto e toco no ombro de Pat. "Você sabe o que fazer."

            Eu não vou mais correr, nunca mais.

            Patrícia me olha com uma pequena faísca de irritação, mas concorda. "Carlinhos, me segue." Ele concorda contrariado. Ela era a mais velha, afinal. Mas acha estranho me deixar para trás. Olho para ele e sorrio. "Tchau, Carlinhos."

            Gisele levanta lentamente. Ela se assusta comigo. Seus olhos, de um castanho claro, espelham pedras âmbar. Gisele não era estranha, ela só era bonita. “Não precisa se assustar. Eu voltei para te ajudar."

            Suas mãos correm para o vestido. "Meu deus. Preciso voltar." Gisele encontra buracos onde o tecido tinha se prendido no píer. "Ah não... O vestido deles está destruído." Sua voz trazia pequenos traços de medo.

            "Você não precisa voltar se não quiser. Pode vir comigo e se secar na minha casa."

            "Não posso. Ou vai ser muito pior quando eu voltar." Ela me dá as costas e segue para a estrada que levaria de volta para as casas. Seus passos são curtos e lentos, como se tentasse adiar a caminhada o máximo possível. Minhas palavras saem antes mesmo que eu perceba.

            "Então eu vou com você."

            "O quê?"

            "Sem problemas, só vou te acompanhar até a entrada." Sorrio de leve para ela. "Não vou inventar nada, só quero acompanhar você."

            Gisele me olha por alguns segundos, tentando acreditar nas minhas palavras, considerando todos os eventos anteriores.

            "Acho que até a porta não tem problema."

            Ela vai na frente a princípio, mas à medida que avançamos ela me permite andar ao seu lado. Quanto mais perto chegávamos de sua casa mais lentamente Gisele caminhava. Quando paramos na porta da frente ela tinha congelado totalmente. Pego em sua mão e dou um passo à frente.

            "Não se preocupe. Eu não vou soltar a sua mão."

            Eu bato na porta trancada. Estamos as duas molhadas e tremendo de frio. A porta se abre com um rangido demorado. Gisele aperta forte minha mão. Um homem com olhos escuros abre a porta. Ele é alto e tem um sorriso largo e assustador.

            "Entrem, meninas."

 

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