segunda-feira, 20 de março de 2017

2. Seiscentos e três - Por Luisa Ricardo



            Deixo a loja minutos mais tarde com um horário para retornar, sem saber meu nome, sem saber de onde vim e exatamente para onde ir. Continuo andando pela rua observando tudo, tentando, de qualquer forma, fazer proveito de qualquer informação. Exausta da caminhada sem rumo, decido sentar em degraus. Fico ali, parada, de olhos fechados sentindo a chuva fina bater em meu rosto. Penso em gritar, penso em chorar, penso em rezar, mesmo sem lembrar de qualquer oração que exista; penso em sair dali, mas nada faço. Permaneço sentada, sentindo os pingos acumularem e escorrerem por minhas bochechas, desejando fortemente que a água se transforme em memória.

“Melissa?”

Diz uma voz quase perto.

Melissa! Sim, é meu nome.

“Sim, sou Melissa.”

Digo, direcionando o olhar para a voz. Me deparo com uma mulher alta, de cabelos presos e bem vestida. Ela segura um guarda-chuva na mão esquerda e sacolas pesadas na mão direita. Me encara com um olhar curioso.

“Por que tu está aí, sentada na chuva?”
“Não sei. Gosto da chuva.”

A mulher parece reagir ao que falo de maneira estranha, mas não sei mais, porque novamente estou de olhos fechados, sentindo a água. 

“Quem sabe tu não me ajuda com essas sacolas? Estão pesadas e, de novo, Antônio me fez ir ao mercado, sozinha. Bruto! Não me ofereceu ao menos dinheiro para o táxi.”

Antes de conseguir compreender uma nova pancada de informações vindas da tal mulher, ela me segura pelo braço e me faz levantar. Me entrega três ou quatro de suas sacolas, me puxa para perto, para baixo do guarda-chuva, e começa a andar. Caminho cambaleando ao seu lado.

“Graças a Deus te encontrei, sabe? Meus dedos já estavam caindo com tanto peso. Também, não é fácil carregar o mercado todo. Antônio faz uma lista interminável durante semanas e, quando finalmente se cansa, me manda sozinha dar conta de seus pedidos. Não quero parecer mal agradecida, não me entenda mal. Mas se ele ao menos comparecesse nas horas necessárias, se é que me entende, seria mais prazeroso atender às suas demandas. É por isso que eu dei umas puladas de cerca na época da faculdade. Bons tempos.”

Não sei de quem ela fala, não sei quem ela é. De qualquer forma, sigo caminhando ao seu lado. Ela parece muito feliz tagarelando sem parar. Gosto de ver ela feliz.

“Ouvi falar que vão trocar a porta de entrada do nosso prédio. Finalmente, não é mesmo? Lembro do dia em que tu ficou com a maçaneta na mão depois da milésima vez que a porta emperrou. Espero que, dessa vez, realmente troquem. Lembra da ferida que ficou na tua mão?”

Ela solta uma gargalhada e olha para mim, provavelmente na esperança de que eu comente sobre o incidente. Olho para minhas mãos, uma de cada vez, em busca de qualquer ferida, mas não há nada. Sorrio para ela, mesmo sem lembrar de nada e ela parece aceitar o sorriso como resposta. Finalmente, parece ficar em silêncio.

Continuamos caminhando pela rua molhada. Não fazemos muitas voltas e logo chegamos a um prédio de estrutura alta e antiga. Parece firme, mas de fato tem o aspecto antigo. Sigo a estranha até a porta do prédio, onde ela junta uma chave enferrujada com a fechadura ainda mais precária. Forçando a porta para baixo, finalmente conseguimos entrar. Ficamos caladas no elevador e, por fim, me vejo parada em frente a uma porta contendo o número 603.

“Melissa, minha cara, obrigada pela ajuda. Pode deixar que agora dou conta.”

Tirando as sacolas das minhas mãos, a mulher abre a porta do apartamento.

“Espera, a senhora poderia...”

“Senhora? Virgem Maria! Há anos não te vejo me chamando assim. O que andou fazendo? Bebeu? Fumou? Andou se envolvendo com gente estranha, é? Pois bem, melhor tu descansar. Alguém aqui ainda precisa dar conta de desfazer todas essas sacolas. Por Deus, só de pensar já me dá um desânimo.”

“Mas o que devo fazer? Onde devo descansar?”
“Não me diga que esqueceu as chaves novamente? Da última vez foi preciso um profissional para conseguirmos entrar no teu apartamento. Procura melhor, devem estar na bolsa.”

Diz ela, desaparecendo para dentro do apartamento. De longe ouço berros da mulher.

“Antônio, levanta tua bunda daí e ao menos me ajuda a descarregar as coisas que tu mandou eu comprar.”

E depois, silêncio.

Fico sozinha no corredor sombrio que, com o carpete velho e úmido, cheira a cachorro molhado. Água escorre do teto até encontrar o rodapé. Fico parada, pensando em como vim parar aqui. De repente, penso nas palavras da estranha. Vasculho a bolsa que carrego e encontro o molho de chaves. E o chaveiro ali, com a santa, rezando. 

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