De repente esqueço quem sou. Cai uma chuva fina que molha as pedras da rua, mas não sei onde este caminho vai dar. Falo uma língua que não sei, se nem sei meu nome.
Numa
vitrina vejo o meu rosto: mulher, jovem, sou ruiva. Visto colete azul-marinho
sobre uma camiseta de algodão branca. Tenho relógio, brincos, calça jeans, uma
bolsa e calço sapatilha. Pareço uma mulher sem graça. Abro a bolsa mas não há
nada dentro.
Passa um
rapaz de cabelo comprido que me olha e sorri. Eu o sigo. Ele caminha devagar,
olhando muito para o telefone. Emparelho com ele quando vai atravessar a rua e
fico olhando. Mas agora ele só olha pra frente e entendo que vai entrar num
banco. Entro atrás. A porta de segurança trava. Um guarda diz que tenho de
deixar metais. Vasculho novamente a bolsa e então encontro apenas um molho de
chaves ligado a um chaveiro onde uma santa reza, mais nada. Deixo as chaves na
porta de acrílico e passo pela porta giratória sem acionar o raio-x. Pego as
chaves com o guarda e pergunto:
"Que chaves são essas?"
"São suas, ora."
"E abrem o quê?"
"Parece porta de casa."
"Que casa?"
"Eu é que vou saber?"
"A santa, conhece?"
"Não sou católico."
Olho para a chave e pergunto:
"Acha que sou católica?"
Ele comenta com o outro guarda que lhe
aparece cada uma. Procuro o rapaz cabeludo. Está na fila. Sento junto a uma
senhora e fico à espera dele. A senhora me cutuca o
braço:
"Aqui é só para contas jurídicas?"
"Não sei. A senhora sabe que língua é essa?"
"Qual?"
"A
que estamos falando."
"Brasileiro,
não é?"
"E
este país, qual é?"
"Já
não sei mais."
"Nem
o nome?"
"O
nome ainda é Brasil."
"Brasil é o nome?"
Ela ri e se vira pra mim.
"Eu não elegi eles, viu?"
"A senhora acha que eu elegi eles?"
Olho pras pessoas que estão no banco.
"Não interessa o que eu acho. Se
votou neles, é problema seu. O que eu precisava saber é se aqui é só pra contas
jurídicas."
Ela tem dificuldade para se levantar e
digo que vou ao guarda perguntar, e ele me diz que é pra todas as contas. Volto
a sentar ao lado da senhora.
"Todas as contas."
"A moça tem que pegar senha."
"Não preciso."
"É cliente especial?"
"Votei neles."
A senhora me olha desconfiada. Vejo o
rapaz no caixa, mexendo em papéis. Ele se demora um pouco e alguém chama um
número e a senhora manquitola até a mesa. Só me levanto quando o rapaz passa
por mim. Vou atrás dele e chamo a atenção dos guardas.
Na rua o rapaz anda mais rápido e eu o
alcanço. Ficamos lado a lado de novo e eu olho muito diretamente pra ele.
"Fala comigo", eu digo.
"O que você quer?", ele diz,
me pegando no braço. "Tá me seguindo?"
"Me
conhece?"
"Deveria?"
"Acho
que poderia."
"Não,
não conheço."
"É
que tu me olhou hoje de manhã e daí sorriu e parecia que a gente se conhecia."
"Tu deve ser mulher de horóscopo. Vai
arranjar trabalho."
É o que ele me manda fazer. Ele me deixa, apressando o passo. Percebo os automóveis com a mesma
placa e descubro onde estou: PORTO ALEGRE-RS. Numa vitrina, leio que precisam
de gente pra trabalhar. Entro.
"Pois não?"
"Quero trabalhar."
"Tem experiência?"
"No quê?"
"Fotocópias, é o que fazemos."
"É o que nós fazemos?"
"Que bom."
Ele chama alguém:
"Jorge, tem uma guria aqui que
quer trabalhar no balcão."
De dentro da loja, alguém grita:
"Conhece o ramo?"
O rapaz me olha.
"Que ramo?"
"Este ramo", ele aponta pra
mesa.
"Sim. Preciso trabalhar."
"Ela disse que quer trabalhar,
Jorge."
"Manda ela passar aqui."
O rapaz me conduz para uma sala onde
estão máquinas desmontadas e sujas. Há papéis por todos os lados. Tudo cheira a
coisa fechada. O Jorge está sentado num banco, mexendo numa peça com uma chave de
fendas. Ele abaixa os óculos, que ficam presos ao pescoço por um cordão.
"Então é fotocopiadora?"
"Sou fotocopiadora."
"Que bom."
Me sinto salva.
"E qual é o teu nome?"
"Não sei", eu digo. "Só
sei que preciso trabalhar."

Gente, está incrível esta história. Jeremias, as ilustrações ficaram bem pertinentes. Tudo lindo!
ResponderExcluirParabéns!
Altair Martins
Gente, está incrível esta história. Jeremias, as ilustrações ficaram bem pertinentes. Tudo lindo!
ResponderExcluirParabéns!
Altair Martins