Busco respostas em nomes sem perguntas, afinal quem seria Carlos Carneiro Amadeu (ou Carlinhos Carneiro)? E quais são as ligações com essa data, o que ocorreu no dia 25 de outubro de 2000? Não, espera um instante, algo está diferente. Eu não consigo reconciliar minha mente para o ano 2000, mas o dia 25 de outubro me tem um gosto familiar, um gosto doce e confortante ao mesmo tempo pútrido e amargo. Penso em voltar para casa, mas sinto que vão descobrir onde estou com a Pat, dando com a língua nos dentes. Me pego refletindo sobre como eu iria achar uma data tão especifica, onde haveria informações que não se podem apagar. Penso num centro de polícia, talvez eles possuam a minha ficha (ela estando limpa ou não). Mas se meus pais mantêm essa clínica às escondidas, é provável que eles tenham contato dentro da polícia que impeça uma investigação. Se um taxista sabe dos “boatos” sobre a clínica, a cidade inteira provavelmente sabe, pois os taxistas movimentam muita informação de passageiro para passageiro. E mesmo assim nada de buscar a verdade por traz do boato. Ou até tenham procurado e não encontraram nada. Tudo isso soa muito estranho em minha cabeça, mas nada mais estranho que essa data, esse dia e esse mês.
Resolvo
ir ao cartório, pois acho que dificilmente meus dados estejam corrompidos ou
apagados. Mas afinal, onde ficaria o cartório? Numa cidade tão grande, na qual
não lembro nem de seus pontos turísticos, me pego sem rumo. Perguntar por
informação é o que me resta, já que o dinheiro que eu tenho no bolso já está
ficando escasso e pedir um táxi é uma facada que quero evitar. Pergunto onde
fica o cartório, e descubro que é bem perto donde estou. Posso seguir a pé (só
tomara que não notem que estou dopada... e tomara que estar dopada não me
atrapalhe). Uma senhora muito gentil me fala que fica ao lado do “Tudo Fácil”,
e sinceramente acho que não devem ter muitos prédios com esse nome por aí.
Após uma hora, percebo que os efeitos daquilo que injetaram em mim já haviam passado. Chegando ao cartório, me dirijo ao atendente com um rosto meio sonolento.
“Com licença, senhor, eu vim busc....”
Ele me
interrompe com um dedo apontando um letreiro sobre mim.
“Tu é quem possui a ficha 73?”
“Não, mas eu preciso falar com urgên...”
“Tu é de idade avançada, possui criança de colo ou alguma
limitação?”
“Não...”
“Então retire uma ficha e espere sua vez. Todos aqui estão
aguardando e tu não deve ser melhor do que ninguém aqui para ter um atendimento
especial!”
Ele
foi meio grosso, muito grosso na verdade. Mas eu tinha que esperar na fila
mesmo, ele estava certo nesse sentido. E com isso acabo procurando onde retiro
minha ficha. Sou a 78, não tem tantas pessoas assim na minha frente, o que me
alivia muito. Pode parecer que estou apressada, mesmo sem possuir um
compromisso, mas quem não estaria com pressa de saber a verdade por trás de
tudo. O tempo voa, a ansiedade aumenta e os roncos do senhor sentado ao meu
lado ampliam gradativamente (e os arrotos que ele solta periodicamente me
embrulham cada vez mais), até que finalmente chega o ficha... Do senhor, ele é
o 77. Não sabia se ficava aliviada ou não por finalmente me livrar da sua
sinfonia.
Chegando a minha vez, me dirijo ao
balcão do atendente grosso.
“O que seria para você, senhora?”
“Eu gostaria de buscar minhas informações.”
“Ta senhora, você tem alguma certidão sua presente? Alguma
identificação?”
Faço apenas um “não” com o balançar da
cabeça.
“Senhora, você complica meu trabalho assim.”
Eu
fico nervosa, não sei se de raiva ou de medo de não conseguir nada.
“Não teria outra forma de buscar, eu tenho meu nome e...”
A
atendente ao lado interrompe-me agora, mas ela faz isso de forma sutil.
“Pode passar comigo, Melissa, irei te informar tudo que
você precisar.”
Meu
coração acelera, e por algum motivo tenho vontade de correr porta afora. Como
essa senhora de idade sabe meu nome? Como ela se lembra de mim? E,
principalmente, como ela pode me informar tudo que eu preciso?
Atordoada
e sem saber o que fazer, acabo seguindo o que sua voz fala. Aproximo-me do
balcão dela.
“Como você sabe meu nome? Desculpa-me, senhora, mas não me
lembro do seu rosto, só de sua voz. Por acaso já conversamos antes?”
“Claro, minha querida, sou eu, a tia Clarisse, aquela que
cuidava dos cachorros na rua, sua antiga vizinha que te oferecia doces sempre
que passava na frente da minha casa no caminho de volta da escola.”
Clarisse,
esse nome me é familiar assim como a voz, mas algo não soa bem nessa história.
Agora que me lembro, havia uma Clarisse em meio à papelada das pessoas
presentes no meu caso.
“Senhora, o que acontece de tão diferente no dia 25 de
outubro?”
A
senhora com seu mais gentil sorriso me responde.
“É a data do seu aniversario, minha querida. 25 de outubro
de 1989.”
A
resposta bate em mim, mas não sinto mais. O impacto pela adrenalina de estar
chegando próximo a algo me faz ignorar o fato de finalmente saber quantos anos
eu tenho.
“O que aconteceu no meu aniversario de 11 anos?”
A
senhora se transforma nesse momento: seu sorriso gentil se torna o fundo do
oceano, seus olhos arregalam e ela parece se engasgar com o próprio ar com o
pavor que minhas palavras semeiam sobre ela.
“Então é verdade que você não se lembra de nada, pensei que
fosse uma brincadeira em longo prazo?”
“Que tipo de brincadeira envolveria algo tão sério como
perder as memórias de tudo e todos?”
“Tem razão, eu quis aceitar que aquilo era apenas uma
brincadeira, que o seu sumiço tinha sido por causa do intercâmbio em que os
seus pais a puseram. Tudo bem, irei lhe contar tudo que você quiser saber, mas
aviso que talvez venha a machucar. Também gostaria de contar outra hora, estou
no horário de serviço e tenho outras pessoas a atender.”
Ouço-a
resmungar consigo mesma “o que o Carlos vai pensar disso...”
Faço
apenas um “sim” com a cabeça e volto a me sentar nos bancos. Aguardo mais uma
ficha passar, mais uma fila de fichas para a verdade.
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