“Qual o nome deles? Merda, eu não lembro nem o nome dos
nossos próprios pais! Qual o nome dessa maldita clínica, Pat? Qual o novo
endereço?”
“Calma, Melissa. Eles se chamam Vivian e César. A Clínica
Oblivion fica na Avenida Nilo Peçanha, número 1800, agora. Mas acho melhor tu
não ir lá de novo… Droga, eu nem deveria estar te falando isso.”
“Eu nem lembro da última vez que eu fui lá, Pat. Tô indo pra
lá. Depois nos falamos.”
“Melissa, espera!”
Desliguei o
telefone antes que Pat tentasse me convencer de alguma outra coisa. Eu
precisava de respostas, pra ontem. Tinha uma bolsa pendurada do lado da porta,
não sei se era minha ou de Pat, mas encontrei uma carteira dentro dela com
algumas notas de dinheiro. Peguei e as pus no bolso, saí da casa e caminhei até
uma rua mais movimentada, e fiz sinal para o primeiro táxi vazio que passou por
ali. Dei o endereço da maldita Clínica Oblivion para o taxista, um senhor de
idade com bigode.
“O senhor já ouviu falar sobre essa clínica?”
“A Oblivion? Hum… Já ouvi alguns boatos sobre ela, que fazem
experiências em humanos ou algo do tipo. Nem sei exatamente o ramo deles, mas
sei que é algo meio esquisito.”
Assenti
após o comentário do senhor, e fiquei matutando sobre que tipo de pais eu
tinha. Chegando ao endereço, paguei o taxista e desci do veículo, me deparando
com um prédio gigante, todo de vidro, que passava um ar de luxo e
profissionalismo. Um letreiro preto acima da entrada com portas giratórias
denominava o lugar: “OBLIVION”. Passei pelas portas e encontrei uma moça
bronzeada e de cabelos quase brancos de tão platinados. Ela me encarava com os
olhos saltados, e uma plaquinha em cima da mesa dizia que seu nome era Samira.
Seu rosto me era familiar.
“Senhorita Melissa, o que te trouxe aqui? Algo errado?”
“Eu quero falar com a Vivian e o César, meus pais, agora.”
“Tem certeza? Sem querer me meter, mas acho que isso não
faria bem pro teu tratamento.”
“Como que
ver meus pais poderia me fazer mal? Eu quero vê-los agora.”
Samira discou um
ramal.
“Vivian? Melissa está aqui. Ela quer muito falar com vocês…
Certo, sem problema.”
“E então?”
“Max vai te acompanhar até a sala da Vivian e do César,
Melissa.”
Senti alguém
chegando por trás, me virei e vi um homem forte e alto se aproximando de mim.
Ele meneou a cabeça em direção ao elevador na outra ponta do hall, e eu segui
naquela direção. As portas se abriram e entramos. Quando pensei em perguntar
alguma coisa para o tal de Max, senti uma picada gelada no meu pescoço, meu
corpo amoleceu instantaneamente, e minha visão escureceu.
Acordei em
uma cadeira acolchoada numa sala escura com luzes baixas, e meus pais à minha
frente,
“Melissa, querida, como se sente?”, minha mãe perguntou.
Eu queria
gritar de raiva, mas me sentia mansa como uma gatinha.
“Furiosa. Por que me medicaram à força? Mesmo que eu tenha
aceitado participar desse tratamento idiota, tô fora. Eu quero lembrar de tudo,
nunca mais quero sumir, ou saltar no tempo.”
“Saltar no tempo? Sério? Isso é incrível, querida. É a
segunda paciente a apresentar esse sintoma. É um mecanismo de defesa do teu
cérebro que te impede de lembrar demais. Para isso, ele pode quebrar a
linearidade temporal. Entretanto, o certo seria que após esse salto tua memória
limpasse novamente. Tu não deverias ser capaz de acumular memórias enquanto
transita entre camadas do tempo”, meu pai dizia com os olhos arregalados.
“Nada disso me interessa. Não quero mais viver nesse filme
de ficção científica. Quero lembrar de tudo e ir para o presente, seja lá
quando ele seja.”
“Pat errou em te dizer sobre nós. Ainda bem que ela nos
avisou.”, meu pai disse com um olhar de decepção que me parecia familiar.
“Melissa, querida, tu assinou uma série de contratos antes
de começar o tratamento. Esse foi o primeiro, em que tu aceita todos os efeitos
colaterais desde que nunca se lembre dos eventos do dia 25 de outubro de 2000.”
Ela me
mostrou a página com a minha assinatura, “Melissa Souza”. Meu pai estava
lentamente dando a volta na cadeira em que estou, com outra seringa na mão. Chega
de seringas e medicamentos. Reúno todas as forças que encontro no meu corpo -
agora pesado - e me jogo no chão, caindo por cima das pernas da minha mãe e a
levando junto comigo. Arranco as folhas do contrato estúpido que ela tinha na
mão e engatinho o mais rápido possível em direção à porta, que por sorte estava
aberta.
O corredor
tinha iluminação forte e o alarme de emergência ecoava nos meus ouvidos, me
levantei apoiando-me na parede e fiz o mais próximo possível de uma corrida até
o que me parecia ser a direção da saída. Havia uma porta metálica no fundo do
corredor, e me joguei até ela. Estava em uma escada de emergência, que
acompanhava a parede dos fundos do prédio até o chão. Desci aos tropeços e caí
de quatro na calçada.
Apesar de
tudo, foi fácil demais fugir. Meu pai deve ter ficado socorrendo minha mãe -
compreensível - mas definitivamente eles precisavam de novos seguranças, já que
uma mulher dopada conseguiu escapar dali facilmente. Acho que o déjà vu
daqueles corredores e de onde era saída talvez tenham me ajudado um pouco. Não
sei dizer se já havia tentado fugir daquele lugar inóspito algumas outras
vezes.
Passada
essa reflexão, olhei os papéis amassados em minhas mãos. Vários protocolos que
certamente leria com mais atenção depois, mas uma lista me chamou atenção: uma
lista com os nomes de “pessoas cientes dos eventos ocorridos no dia 25 de
outubro de 2000 que ignoram a existência do tratamento de Melissa Souza”.
Clarisse
Albuquerque
José
dos Santos Amado
Carlos
Carneiro Amadeu
Os primeiros nomes me soaram
meramente familiares, mas o nome de Carlos, ou Carlinhos, obviamente, me chamou
atenção. Eu precisava achar esse homem, seja lá onde ele estivesse. E seja lá o
que ele soubesse, eu também precisava saber.

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