quinta-feira, 8 de junho de 2017

11 - Eventos do dia 25 - Por Ísis Falcão



“Qual o nome deles? Merda, eu não lembro nem o nome dos nossos próprios pais! Qual o nome dessa maldita clínica, Pat? Qual o novo endereço?”

“Calma, Melissa. Eles se chamam Vivian e César. A Clínica Oblivion fica na Avenida Nilo Peçanha, número 1800, agora. Mas acho melhor tu não ir lá de novo… Droga, eu nem deveria estar te falando isso.”

“Eu nem lembro da última vez que eu fui lá, Pat. Tô indo pra lá. Depois nos falamos.”

“Melissa, espera!”


            Desliguei o telefone antes que Pat tentasse me convencer de alguma outra coisa. Eu precisava de respostas, pra ontem. Tinha uma bolsa pendurada do lado da porta, não sei se era minha ou de Pat, mas encontrei uma carteira dentro dela com algumas notas de dinheiro. Peguei e as pus no bolso, saí da casa e caminhei até uma rua mais movimentada, e fiz sinal para o primeiro táxi vazio que passou por ali. Dei o endereço da maldita Clínica Oblivion para o taxista, um senhor de idade com bigode.

 

“O senhor já ouviu falar sobre essa clínica?”

“A Oblivion? Hum… Já ouvi alguns boatos sobre ela, que fazem experiências em humanos ou algo do tipo. Nem sei exatamente o ramo deles, mas sei que é algo meio esquisito.”

 

            Assenti após o comentário do senhor, e fiquei matutando sobre que tipo de pais eu tinha. Chegando ao endereço, paguei o taxista e desci do veículo, me deparando com um prédio gigante, todo de vidro, que passava um ar de luxo e profissionalismo. Um letreiro preto acima da entrada com portas giratórias denominava o lugar: “OBLIVION”. Passei pelas portas e encontrei uma moça bronzeada e de cabelos quase brancos de tão platinados. Ela me encarava com os olhos saltados, e uma plaquinha em cima da mesa dizia que seu nome era Samira. Seu rosto me era familiar.

 

“Senhorita Melissa, o que te trouxe aqui? Algo errado?”

“Eu quero falar com a Vivian e o César, meus pais, agora.”

“Tem certeza? Sem querer me meter, mas acho que isso não faria bem pro teu tratamento.”

“Como que ver meus pais poderia me fazer mal? Eu quero vê-los agora.”

 Samira discou um ramal.

“Vivian? Melissa está aqui. Ela quer muito falar com vocês… Certo, sem problema.”

“E então?”

“Max vai te acompanhar até a sala da Vivian e do César, Melissa.”

 

            Senti alguém chegando por trás, me virei e vi um homem forte e alto se aproximando de mim. Ele meneou a cabeça em direção ao elevador na outra ponta do hall, e eu segui naquela direção. As portas se abriram e entramos. Quando pensei em perguntar alguma coisa para o tal de Max, senti uma picada gelada no meu pescoço, meu corpo amoleceu instantaneamente, e minha visão escureceu.

 

            Acordei em uma cadeira acolchoada numa sala escura com luzes baixas, e meus pais à minha frente,

 

“Melissa, querida, como se sente?”, minha mãe perguntou.

            Eu queria gritar de raiva, mas me sentia mansa como uma gatinha.

“Furiosa. Por que me medicaram à força? Mesmo que eu tenha aceitado participar desse tratamento idiota, tô fora. Eu quero lembrar de tudo, nunca mais quero sumir, ou saltar no tempo.”

“Saltar no tempo? Sério? Isso é incrível, querida. É a segunda paciente a apresentar esse sintoma. É um mecanismo de defesa do teu cérebro que te impede de lembrar demais. Para isso, ele pode quebrar a linearidade temporal. Entretanto, o certo seria que após esse salto tua memória limpasse novamente. Tu não deverias ser capaz de acumular memórias enquanto transita entre camadas do tempo”, meu pai dizia com os olhos arregalados.

“Nada disso me interessa. Não quero mais viver nesse filme de ficção científica. Quero lembrar de tudo e ir para o presente, seja lá quando ele seja.”

“Pat errou em te dizer sobre nós. Ainda bem que ela nos avisou.”, meu pai disse com um olhar de decepção que me parecia familiar.

“Melissa, querida, tu assinou uma série de contratos antes de começar o tratamento. Esse foi o primeiro, em que tu aceita todos os efeitos colaterais desde que nunca se lembre dos eventos do dia 25 de outubro de 2000.”

 

            Ela me mostrou a página com a minha assinatura, “Melissa Souza”. Meu pai estava lentamente dando a volta na cadeira em que estou, com outra seringa na mão. Chega de seringas e medicamentos. Reúno todas as forças que encontro no meu corpo - agora pesado - e me jogo no chão, caindo por cima das pernas da minha mãe e a levando junto comigo. Arranco as folhas do contrato estúpido que ela tinha na mão e engatinho o mais rápido possível em direção à porta, que por sorte estava aberta.

 

            O corredor tinha iluminação forte e o alarme de emergência ecoava nos meus ouvidos, me levantei apoiando-me na parede e fiz o mais próximo possível de uma corrida até o que me parecia ser a direção da saída. Havia uma porta metálica no fundo do corredor, e me joguei até ela. Estava em uma escada de emergência, que acompanhava a parede dos fundos do prédio até o chão. Desci aos tropeços e caí de quatro na calçada.

 

            Apesar de tudo, foi fácil demais fugir. Meu pai deve ter ficado socorrendo minha mãe - compreensível - mas definitivamente eles precisavam de novos seguranças, já que uma mulher dopada conseguiu escapar dali facilmente. Acho que o déjà vu daqueles corredores e de onde era saída talvez tenham me ajudado um pouco. Não sei dizer se já havia tentado fugir daquele lugar inóspito algumas outras vezes.

 

            Passada essa reflexão, olhei os papéis amassados em minhas mãos. Vários protocolos que certamente leria com mais atenção depois, mas uma lista me chamou atenção: uma lista com os nomes de “pessoas cientes dos eventos ocorridos no dia 25 de outubro de 2000 que ignoram a existência do tratamento de Melissa Souza”.

           

Clarisse Albuquerque

            José dos Santos Amado

            Carlos Carneiro Amadeu

 

            Os primeiros nomes me soaram meramente familiares, mas o nome de Carlos, ou Carlinhos, obviamente, me chamou atenção. Eu precisava achar esse homem, seja lá onde ele estivesse. E seja lá o que ele soubesse, eu também precisava saber.

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