terça-feira, 20 de junho de 2017

13. O dia que não deve ser lembrado - Por Raquel Soares


 

                Meu estômago está embrulhado e o meu coração descompassado. A espera é uma tortura. Estou tão perto das respostas, mas ainda assim me sinto insegura. E se eu não gostar do que ouvir? E se eu começar a desaparecer de novo? Não quero voltar ainda mais nas minhas memórias, não quero mais pular no tempo. Penso em Pat. Ela provavelmente está me procurando nesse exato momento junto com os meus pais. Preciso ser rápida, não posso ser levada para aquela clínica de novo.

                As horas vão passando que nem uma tartaruga numa corrida de kart. Minhas pálpebras ficam pesadas, eu preciso descansar. Apago ali mesmo, no banco de espera do cartório.


“Melissa, me escuta.”

“Não, Carlinhos, eu não aguento mais.”

“Tu precisa voltar pra clínica, é o melhor pra ti.”

“Não acredito que tá fazendo isso.”

“Se tu não for agora vou ligar pros teus pais.”

“Por favor, me deixa fugir contigo.”

“Tá louca, Melissa? Não posso te levar, tu tem que voltar pro tratamento isso sim.”

“Eu não quero, não posso. Eu me esqueci de tudo sabia? Entrei em colapso.”

“Mas tá de volta, firme e forte.”

“E por quanto tempo? Me diz?”

“Não sei Mel, mas o que tu queria? É experimental, vai ter erros, tu querendo ou não.”

“Não se trata mais dos erros Carlos, se trata de mim. Já parou pra pensar que eu não quero mais esquecer sobre o dia 25?”

“Não fala merda, Melissa, não começa com isso de novo.”

“Carlinhos, se tu me ama precisa me ajudar.”

“Não fode, Melissa, tem noção do que está em jogo aqui?”

“Por favor, eu preciso...”

“Tenho que desligar.”

“Não, espera!”

“Volta pra clínica Mel, só volta pra porra da clínica.”

“Carlinhos...”


                Acordo num pulo, com uma mão pequena me balançando o ombro. É Clarisse. Ela está parada de pé do meu lado, com o seu vestido preto fúnebre e o seu olhar gentil. Limpo a baba que escorre pelo canto da minha boca e me endireito no assento. Teria sido aquilo uma lembrança perdida?


“Dormi por muito tempo?”

“Talvez só um pouquinho. Teve um pesadelo, querida?”

“Não tenho certeza se estava sonhando.”

“Hm.”

“O teu turno já acabou?”

“Acabou sim, querida.”

“Que bom, agora desembucha. A senhora me prometeu respostas.”

“Não aqui, não é seguro.”

“Onde então?”

“Vamos até a minha casa.”


                A senhora sai caminhando na minha frente e eu me levanto rápido para não ficar para trás. O céu está escurecendo e posso ver a lua, quase transparente, surgindo no horizonte, anunciando a chegada da noite. Clarisse não disse uma só palavra durante o percurso até sua casa. Devia chamá-la de tia, mas não me sinto confortável para isso. Sua voz e o seu nome naqueles papéis me trazem um gosto fedorento na boca. Não sei se posso confiar nela. Ela pode me levar às respostas e me trazer de volta a lembrança do dia 25 de outubro de 2000, porém posso estar caminhando direto para uma armadilha. Tenho que arriscar, afinal agora é tudo ou nada.

                Chegando na casa, Clarisse busca por suas chaves na bolsa para poder abrir o portão. Ela remexe, remexe e remexe naquela coisa enorme e marrom, fazendo inúmeros barulhos até finalmente achar as chaves. Abre o portão com cuidado e faz sinal para que eu entre. Ando em direção à porta da casa sem esperar pela dona. É uma porta grande de madeira toda entalhada e lustrosa. O cheiro de verniz faz meu cérebro girar em 180º graus. Sinto que vou divagar em uma lembrança, mas alarme falso. Nada acontece. A senhora se esgueira por trás de mim e abre a porta.

“Feche depois de entrar.”

Obedeço silenciosamente. A casa por dentro parece uma loja de antiguidades. Não sei por que, mas acho que gosto de coisas vintage. Fico apaixonada pela coleção de louças adornadas, elas tomam conta de um gigante armário em forma de “u” que circunda uma televisão de tamanho mediano. Sinto que já estive ali antes.


“Sente na poltrona, vou preparar um chá para nós”.

“Não sei se posso sentar nela.”

“José não mora mais aqui, Melissa. Não tem com o que se preocupar.”

 
                José dos Santos Amado. Outro nome da lista. As peças do quebra-cabeça continuam aparecendo, mas não consigo juntá-las. É um emaranhando de informações que fazem sentido e ao mesmo tempo me deixam ainda mais confusa.

 
“Aqui está, o seu favorito: chá de hortelã.”

“Não sabia que tinha preferência.”

“Tu e a Pat sempre vinham lanchar na minha casa, lembra? Tu sempre pedia pelo chá de hortelã e a Pat o de camomila.”

“Não lembro, desculpa.”

“Entendo.”

“Vamos ao que interessa: o que aconteceu no meu aniversário de 11 anos?”

“Bom tudo começou quando a minha sobrinha veio morar comigo.”

“Sobrinha?”

“Sim, seu nome era...”

“Gisele.”

“Isso. Enfim, ela nunca foi uma garota normal, nunca teve amigos e passava a maior parte do seu tempo jogando pedras no lago. Tu, a Pat e o Carlinhos vivam implicando com ela. Todo dia ela voltava pra casa chorando e com a roupa completamente suja. Nunca dei muita bola, dizia pra ela que era culpa dela, afinal quem mandou ser tão esquisita?

 
Meu namorado José gostava dela. Gostava até demais. Não me dava atenção, só queria saber de Gisele. Passei a odiá-la por isso e odiar a minha irmã por ter deixado esse embuste na minha casa. Naquele ano, quando chegou o dia 25 de outubro, tu não quis saber de festa. Só queria um bolo de chocolate e uma bicicleta nova para andar com a Pat e o Carlinhos pela rua. Seus pais sempre te davam tudo, assim sendo tu acabou ganhando o que pediu.”


“Pegamos o bolo, as bicicletas e sentamos na calçada.”

“Gisele escolheu um péssimo dia para sair de casa, pobre menina.”

“Não, não, não.”

“A verdade e a lembrança doem não é mesmo?”

“Para.”

“Ela só estava indo para o lago como sempre fazia.”

“Para.”

“Mas vocês não resistiram à tentação. Tacaram bolo em seu vestido branco e quando ela correu foram atrás. Podiam ter deixado para lá.”

“Por favor, para.”

“Seus pés estavam escorregadios por causa do bolo e o píer já não era tão firme. Podiam ter salvado ela, mas ao invés disso fugiram.”

“EU DISSE PARA!” gritei jogando a xícara de chá no chão. O som da porcelana estilhaçando fez o meu ouvido doer.

“Diga-me, Melissa, a santa ainda te assombra?”

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