Me sento no sofá e
pego o primeiro papel, que está grampeado ao segundo. É um papel menor, e
quando o viro para poder ler, vejo que é um termo de compromisso, assinado por
mim, que diz que eu aceitei participar das pesquisas de um medicamento em
teste, chamado Avenal de Promatazol, e que eu estava ciente dos riscos e dos
“possíveis efeitos colaterais” dele. Olho para o papel, me sentindo um
pouco nauseada. Não me lembro de estar ciente de nada disso. O que raios foi
que eu fiz que me forçou a assinar um termo para virar cobaia de laboratório?
Minha cabeça começa a doer, mas eu continuo, sentando no sofá com o resto dos
papéis na mão. Seguro o próximo. Está virado, e eu não tenho certeza de quero
saber o que está no outro lado. Respiro fundo e o viro. É uma receita para o
tal de Avenal de Promatazol. Não me lembro de ter comprado, mas assumo que sim,
pois só tenho uma via. Imagino o que esse remédio fez comigo, as palavras
“efeitos colaterais” voando na minha cabeça como pequenos pássaros de
preocupação. Meu Deus, como eu odeio não lembrar de nada. Coloco a receita ao
meu lado no sofá, porque olhar para ela só está me fazendo sentir pior, e pego
o próximo papel.
Só que, para a
minha surpresa, não é um papel, e sim uma foto. Nela, quatro pessoas sorriem
para a câmera, em frente ao prédio da Av. João Pessoa que agora estava à venda
na imobiliária. Duas delas, um homem e uma mulher, estão vestindo jalecos de
laboratórios, e o homem segura uma prancheta. Instantaneamente reconheço os
dois. São os meus pais. Não sei por que, mas esse reconhecimento faz meu
estômago borbulhar com uma mistura de nojo, raiva e arrependimento. Tento focar
nas outras duas pessoas da foto, Pat e eu. Pat parece a mesma, só que mais
nova, e de cabelos pintados de roxo. Ela está me abraçando na foto, e, quando
olho para meu rosto, quase não me reconheço. Meus olhos estavam grandes e
desfocados, eu estava sorrindo mas sei que não era genuíno. Estou segurando
algo - um pacote laranja - mas, por mais que tente, não consigo me lembrar o
que estava dentro dele. Por fim, percebo que estou usando um macacão todo
verde. Essa foto me dá arrepios, decido, antes de colocá-la de lado com os
outros papéis.
O quarto papel é, na verdade, um bloco de folhas
bem fino. Olho algumas das páginas. São todas escritas à mão. Escolho,
aleatoriamente, uma página, e leio.
22.09.2003
Paciente fazendo um progresso bom, mas lento. Não
parece se lembrar mais do local, mas lembra das pessoas presentes no dia. Não
apresenta nenhum efeito colateral. Aumentei a dosagem e a colocarei em
observação.
Dosagem atual: 22,5 mg
Nova dosagem: 25 mg
Algo não está
certo. Tenho certeza disso. Dosagem aumentada? Não faço ideia de como remédios
funcionam, mas acho que 25 mg é uma dosagem alta. Folheio o bloco novamente, e
paro em uma das páginas no final. Um calafrio corre pelo meu corpo ao perceber
que a folha está preenchida por apenas duas frases.
30.10.2003
Efeitos colaterais aumentaram. Paciente diz não
lembrar da própria família.
Folheio de novo, e
descubro que todas as páginas no final se parecem com aquela: Paciente diz
não lembrar onde mora. Paciente diz não lembrar seu sobrenome. Paciente diz não
lembrar quem é…
Mas uma página, a
última, me chama atenção.
Paciente desaparecida.
Está escrito
assim, sem data, sem nada. Sem nenhuma informação útil sobre o que aconteceu
comigo. Estava prestes a pôr de lado o bloco quando notei a marca d’água que as
páginas tinham. Não acreditei no que vi. Procurei uma folha com menos escritos,
só para ter certeza e quase caí de susto quando vi que a mesma santa que estava
no meu chaveiro, estava também nas páginas.
Sem saber o que
fazer, ligo para Pat. O telefone chama, mas ninguém atende. Meu nervosismo
aumenta. Isso tem que significar alguma coisa. Ligo de novo. Sem resposta. Na
terceira vez que tento, a voz irritada de Pat me responde.
“O que tu quer? ”
“Pat. Me diz o que aconteceu.”
“Não, Melissa. Já te dei os papéis. Isso devia
servir pra tu parar de querer fuçar em tudo”
“Mas, Pat...”
“Não, Melissa. Sério, já deu disso. Tu não tá vendo
que isso não é bom?”
“Pelo menos me responde uma coisa.”
Pat fica em
silêncio por um momento. Consigo ouvir ela cochichando algo, depois suspirando.
“Uma coisa.
“Obrigada, Pat, sério mesmo.”
“Fala, Melissa, antes que eu me arrependa.”
“Desculpa, desculpa. Hm. Os nossos pais, Pat.”
“O que tem eles?”
“Essa é a minha pergunta. Onde eles estão? ”
“Merda, Melissa! ”
“Pat, tu prometeu...”
“Eu sei, ok? Eu sei.”
“Então me diz...”
“Eles ainda
estão lá.”
“Lá onde, Pat? Fala comigo, por favor. Me ajuda.”
Ouço Pat respirar fundo.
“Na clínica, Melissa, eles ainda estão trabalhando
na clínica.”

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