terça-feira, 30 de maio de 2017

10. Respostas? - Por Alexia Fossati


 
Me sento no sofá e pego o primeiro papel, que está grampeado ao segundo. É um papel menor, e quando o viro para poder ler, vejo que é um termo de compromisso, assinado por mim, que diz que eu aceitei participar das pesquisas de um medicamento em teste, chamado Avenal de Promatazol, e que eu estava ciente dos riscos e dos “possíveis efeitos colaterais” dele.  Olho para o papel, me sentindo um pouco nauseada. Não me lembro de estar ciente de nada disso. O que raios foi que eu fiz que me forçou a assinar um termo para virar cobaia de laboratório? Minha cabeça começa a doer, mas eu continuo, sentando no sofá com o resto dos papéis na mão. Seguro o próximo. Está virado, e eu não tenho certeza de quero saber o que está no outro lado. Respiro fundo e o viro. É uma receita para o tal de Avenal de Promatazol. Não me lembro de ter comprado, mas assumo que sim, pois só tenho uma via. Imagino o que esse remédio fez comigo, as palavras “efeitos colaterais” voando na minha cabeça como pequenos pássaros de preocupação. Meu Deus, como eu odeio não lembrar de nada. Coloco a receita ao meu lado no sofá, porque olhar para ela só está me fazendo sentir pior, e pego o próximo papel.

 

Só que, para a minha surpresa, não é um papel, e sim uma foto. Nela, quatro pessoas sorriem para a câmera, em frente ao prédio da Av. João Pessoa que agora estava à venda na imobiliária. Duas delas, um homem e uma mulher, estão vestindo jalecos de laboratórios, e o homem segura uma prancheta. Instantaneamente reconheço os dois. São os meus pais. Não sei por que, mas esse reconhecimento faz meu estômago borbulhar com uma mistura de nojo, raiva e arrependimento. Tento focar nas outras duas pessoas da foto, Pat e eu. Pat parece a mesma, só que mais nova, e de cabelos pintados de roxo. Ela está me abraçando na foto, e, quando olho para meu rosto, quase não me reconheço. Meus olhos estavam grandes e desfocados, eu estava sorrindo mas sei que não era genuíno. Estou segurando algo - um pacote laranja - mas, por mais que tente, não consigo me lembrar o que estava dentro dele. Por fim, percebo que estou usando um macacão todo verde. Essa foto me dá arrepios, decido, antes de colocá-la de lado com os outros papéis.

O quarto papel é, na verdade, um bloco de folhas bem fino. Olho algumas das páginas. São todas escritas à mão. Escolho, aleatoriamente, uma página, e leio.

 

22.09.2003

Paciente fazendo um progresso bom, mas lento. Não parece se lembrar mais do local, mas lembra das pessoas presentes no dia. Não apresenta nenhum efeito colateral. Aumentei a dosagem e a colocarei em observação.

Dosagem atual: 22,5 mg

Nova dosagem: 25 mg

 

Algo não está certo. Tenho certeza disso. Dosagem aumentada? Não faço ideia de como remédios funcionam, mas acho que 25 mg é uma dosagem alta. Folheio o bloco novamente, e paro em uma das páginas no final. Um calafrio corre pelo meu corpo ao perceber que a folha está preenchida por apenas duas frases.

 

30.10.2003

Efeitos colaterais aumentaram. Paciente diz não lembrar da própria família.

 

Folheio de novo, e descubro que todas as páginas no final se parecem com aquela: Paciente diz não lembrar onde mora. Paciente diz não lembrar seu sobrenome. Paciente diz não lembrar quem é…

 

Mas uma página, a última, me chama atenção.

 

Paciente desaparecida.

 

Está escrito assim, sem data, sem nada. Sem nenhuma informação útil sobre o que aconteceu comigo. Estava prestes a pôr de lado o bloco quando notei a marca d’água que as páginas tinham. Não acreditei no que vi. Procurei uma folha com menos escritos, só para ter certeza e quase caí de susto quando vi que a mesma santa que estava no meu chaveiro, estava também nas páginas.

Sem saber o que fazer, ligo para Pat. O telefone chama, mas ninguém atende. Meu nervosismo aumenta. Isso tem que significar alguma coisa. Ligo de novo. Sem resposta. Na terceira vez que tento, a voz irritada de Pat me responde.

 

“O que tu quer? ”

“Pat. Me diz o que aconteceu.”

“Não, Melissa. Já te dei os papéis. Isso devia servir pra tu parar de querer fuçar em tudo”

“Mas, Pat...”

“Não, Melissa. Sério, já deu disso. Tu não tá vendo que isso não é bom?”

“Pelo menos me responde uma coisa.”

Pat fica em silêncio por um momento. Consigo ouvir ela cochichando algo, depois suspirando.

“Uma coisa.

“Obrigada, Pat, sério mesmo.”

“Fala, Melissa, antes que eu me arrependa.”

“Desculpa, desculpa. Hm. Os nossos pais, Pat.”

“O que tem eles?”

“Essa é a minha pergunta. Onde eles estão? ”

“Merda, Melissa! ”

“Pat, tu prometeu...”

“Eu sei, ok? Eu sei.”

“Então me diz...”

 “Eles ainda estão lá.”

“Lá onde, Pat? Fala comigo, por favor. Me ajuda.”

Ouço Pat respirar fundo.

“Na clínica, Melissa, eles ainda estão trabalhando na clínica.”

 

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário