quinta-feira, 25 de maio de 2017

9. Pistas - Por Luanda Santos


 
 
Carlinhos Carneiro, outra vez! Esse nome não me soa estranho, mas isso não importa! Talvez importe, se ele puder esclarecer o mistério em que minha vida se transformou para mim. Fico parada olhando para a carta, pensando em como encontrar pistas que me ajudem a lembrar de algo. Penso no endereço do remetente, mas nada concreto. Apenas uma cidade, Cachoeira do Sul. A carta não me ajuda em nada. Penso em algo que eu possa fazer para descobrir o mistério que me assola.


       Depois desse dia estranho, fico com medo de dormir, mas o cansaço me vence. Pela manhã, acordo com Pat me chamando, dizendo que tem que fazer uns exames laboratoriais e que não demora. Pingo, sempre eufórico, corre de um lado para o outro nos cômodos da casa.

       E lá vou eu novamente, na tentativa de encontrar a verdadeira Melissa, só que desta vez não são minhas coisas que irei mexer, mas sim as de minha irmã. Reviro as gavetas do quarto de Pat com Pingo me fazendo companhia, porém ele começa a latir e a ficar agitado percebendo minha aflição.


"Quieto, Pingo! Shhh! Pega o ossinho".


      Jogo um objeto para fora do quarto e fecho a porta, para ganhar tempo e espaço. Continuo procurando algo, não sei o quê, mas preciso de alguma pista de quem eu sou, de quem eu fui. Encontro uma pasta de couro antiga, daquelas que são fechadas à chave. Tento abrir, mas está trancada.  Claro que não estaria aberta. Aliás, tudo em minha vida parece estar trancado.

     Vejo um molho de chaves junto com aquele chaveiro da santa rezando. Decido então pegá-lo e ver se há alguma chave menor que abra a tal pasta. 

     No molho, algumas chaves de tamanhos tradicionais e outras menores. Obviamente, tento com as chaves menores. Testo com a primeira, segunda, terceira chavezinha e nada. Última chavezinha, e ela quebra na fechadura da pasta.

 
"Putz, quando a chave está certa, ela quebra na fechadura da bolsa." 

"Claro! Não é pra ti mexer aí! Por que tá mexendo nas minhas coisas, Melissa?!"

"Pat, eu preciso saber...”.

"Melissa, o portão tava aberto e o Pingo na rua, quase foi atropelado! Ainda bem que um rapaz pegou ele e, como estava de coleira, deduziu que deveria ter fugido de alguma casa. Quando Pingo me viu, veio correndo, como sempre faz”.

"Tá, Pat! Realmente eu não cuidei do Pingo, mas precisava encontrar respostas”.

"Que respostas? Do que tu tá falando, guria?"

"Faz tempo que eu quero te falar e perguntar umas coisas estranhas que andam acontecendo comigo, mas sempre quando eu vou falar... Sei lá, alguma coisa acontece e o assunto sai do ar. Às vezes tenho a impressão de que não é para eu saber das coisas.”

"Calma, Mel, eu te desculpo pelo Pingo. Afinal, ele está aqui e bem. Tá tudo bem!"

"Calma, Mel? Até há pouco tu tava me chamando de Melissa! E agora me chama de Mel. Ah claro! Depois que eu disse que ia te perguntar umas coisas tu te acalmou. Afinal, o que aconteceu, Patrícia? O que estão escondendo de mim, que eu não posso saber? E os nossos pais, onde estão?"

"Tô vendo que, mesmo com o que aconteceu, tu continua bem curiosa, né? Então tá, vem comigo..."


       Naquele momento, minha irmã estica seu braço em minha direção e aponta para a bolsa com a chave quebrada na fechadura, fazendo um sinal para eu lhe alcançar. Faço o que ela solicita por gestos, e ela me leva até um cômodo da casa, cheio de armários com muitos papéis e tubos de ensaio. O cômodo cheira a papel velho com um odor forte de alguma solução que não sei explicar ao certo qual é. Da vontade de espirrar, e o cheiro forte enjoa.

       Pat pega uma faca e corta a bolsa para abri-la: retira uns papéis e me alcança. 


"Toma, é isso que tu tanto procura”.

"O que é isso?"

"Já falei, aí está tudo que tu precisa saber”. Vamos sair daqui. A gente nem devia mais vir até aqui. Vamos embora!"

"Tá, mas..."

"Chega, Mel! Eu não gosto desse lugar e muito menos de falar neste assunto."

"Que assunto, Pat? Por favor, me esclarece!"

“Já disse. Tudo o que tu precisa saber está nos papéis que te alcancei. Agora chega, vamos sair daqui de uma vez. Esse lugar me traz péssimas recordações e dá arrepios. Além do mais, tenho que sair um pouco.”

"Aonde mais tu vai?"

"Nem sei, vou andar por aí, espairecer! Eu tento esquecer o que aconteceu, mas tu não deixa! Quem me dera estar que nem tu. Sem lembrar de nada. Tu não sabe o teu privilégio.”


       O que Pat disse soou com tanto ressentimento que nem perguntei a ela o que aconteceu. Ela não ia me dizer mesmo. Pelo que ela falou, parecia querer estar no meu lugar. Eu, toda perdida, sem lembranças, e ela dizendo que é privilégio. Não sabe de nada!

       Pego o bolo de papel que ela me entregou. Dou uma olhada por cima e avisto um endereço: Av. João Pessoa, 943 - Bairro Farroupilha. Pego o papel para ver do que se trata, mas nele tem uma linguagem técnica, com algumas fórmulas matemáticas que eu não entendo.

       Vou até o endereço, mas o local é um prédio vazio, com placas de “vende-se” e um cartaz onde diz: Imobiliária Farroupilha, com um número de telefone. Anoto e ligo. 

 

"Imobiliária Farroupilha, Boa tarde!”

"Imobiliária? O que é isso mesmo?”

"Local que vende ou aluga imóveis, em que posso te ajudar?”

"Ah, sim, é que... Vi esse telefone num cartaz colado nas paredes de um prédio...”

"Qual o endereço?”

"É: Av. João Pessoa, 943 - Bairro Farroupilha.” 

"Sim. Este imóvel está à venda, lhe interessa?”

"Me interessa?!”

"Então tá, terá que vir até a imob...”

"Calma! Preciso de informações, para saber se me serve ou não.”

"Mais informações, somente vindo até a imobiliária. Avenida João...”.

"Só quero saber por que o imóvel está à venda e o que tinha lá antes?”

"Não sei se posso te passar essas informações. Sou nova aqui e estou em contrato de experiência.”

"Ah, moça, me ajuda só com mais uma ou duas informações, coisa rápida.”

"Tá bem! Também não vejo razão para não te ajudar. Está à venda porque a clínica queria um imóvel maior.”

"Clínica?" 

"Sim. Uma clínica psiquiátrica!"

"E você sabe qual era o nome da clínica?"

"Uhmmm acho que temos aqui nos registros, deixe-me ver. Os papéis estavam aqui por cima, agora pouco."

"Puxa, muito obrigada! Tu não sabe o quanto tá me ajudando"

"Encontrei, o nome da clínica era tu tu tu....."


Não acredito que caiu a ligação, logo agora. Tomara que seja a mesma moça que atenda ao telefone, nem perguntei o nome dela. Ligo novamente e um homem atende. Explico que estava falando com uma atendente, e a ligação havia caído. Passo o que estava falando com ela e solicito que a localize. Ele diz que é o dono da imobiliária e que ela está atendendo alguns clientes presencialmente. Solicito as informações, e ele, friamente, fala que só pode me dizer pessoalmente e finaliza a ligação sem me dar chance de continuar


Nossa, que péssimo atendimento! Mas ao menos eu já sei que era uma clínica psiquiátrica o que havia no local. Dá para começar a imaginar por que Pat não gosta de tocar no assunto. Mesmo assim, minhas dúvidas aumentam, pois eu consigo metade das informações, o que me deixa mais intrigada ainda.

            Chamo um táxi e vou para casa. Ao chegar, tudo escuro. Nem sinal de minha irmã, nem de Pingo. Resolvo então ler o restante dos papéis que minha irmã havia retirado da pasta. Ela disse que as respostas estavam ali.

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