Carlinhos Carneiro,
outra vez! Esse nome não me soa estranho, mas isso não importa! Talvez importe,
se ele puder esclarecer o mistério em que minha vida se transformou para mim.
Fico parada olhando para a carta, pensando em como encontrar pistas que me
ajudem a lembrar de algo. Penso no endereço do remetente, mas nada concreto.
Apenas uma cidade, Cachoeira do Sul. A carta não me ajuda em nada. Penso em
algo que eu possa fazer para descobrir o mistério que me assola.
Depois desse dia estranho, fico
com medo de dormir, mas o cansaço me vence. Pela manhã, acordo com Pat me
chamando, dizendo que tem que fazer uns exames laboratoriais e que não demora.
Pingo, sempre eufórico, corre de um lado para o outro nos cômodos da casa.
E lá vou eu novamente, na
tentativa de encontrar a verdadeira Melissa, só que desta vez não são minhas
coisas que irei mexer, mas sim as de minha irmã. Reviro as gavetas do quarto de
Pat com Pingo me fazendo companhia, porém ele começa a latir e a ficar agitado
percebendo minha aflição.
"Quieto, Pingo!
Shhh! Pega o ossinho".
Jogo um objeto para fora do quarto e
fecho a porta, para ganhar tempo e espaço. Continuo procurando algo, não sei o
quê, mas preciso de alguma pista de quem eu sou, de quem eu fui. Encontro uma
pasta de couro antiga, daquelas que são fechadas à chave. Tento abrir, mas está
trancada. Claro que não estaria aberta.
Aliás, tudo em minha vida parece estar trancado.
Vejo um molho de chaves junto com aquele
chaveiro da santa rezando. Decido então pegá-lo e ver se há alguma chave menor
que abra a tal pasta.
No molho, algumas chaves de tamanhos
tradicionais e outras menores. Obviamente, tento com as chaves menores. Testo
com a primeira, segunda, terceira chavezinha e nada. Última chavezinha, e ela
quebra na fechadura da pasta.
"Putz, quando a
chave está certa, ela quebra na fechadura da bolsa."
"Claro! Não é
pra ti mexer aí! Por que tá mexendo nas minhas coisas, Melissa?!"
"Pat, eu preciso
saber...”.
"Melissa, o
portão tava aberto e o Pingo na rua, quase foi atropelado! Ainda bem que um
rapaz pegou ele e, como estava de coleira, deduziu que deveria ter fugido de
alguma casa. Quando Pingo me viu, veio correndo, como sempre faz”.
"Tá, Pat!
Realmente eu não cuidei do Pingo, mas precisava encontrar respostas”.
"Que respostas?
Do que tu tá falando, guria?"
"Faz tempo que
eu quero te falar e perguntar umas coisas estranhas que andam acontecendo
comigo, mas sempre quando eu vou falar... Sei lá, alguma coisa acontece e o
assunto sai do ar. Às vezes tenho a impressão de que não é para eu saber das
coisas.”
"Calma, Mel, eu
te desculpo pelo Pingo. Afinal, ele está aqui e bem. Tá tudo bem!"
"Calma, Mel? Até
há pouco tu tava me chamando de Melissa! E agora me chama de Mel. Ah claro!
Depois que eu disse que ia te perguntar umas coisas tu te acalmou. Afinal, o
que aconteceu, Patrícia? O que estão escondendo de mim, que eu não posso saber?
E os nossos pais, onde estão?"
"Tô vendo que,
mesmo com o que aconteceu, tu continua bem curiosa, né? Então tá, vem
comigo..."
Naquele momento, minha irmã estica seu
braço em minha direção e aponta para a bolsa com a chave quebrada na fechadura,
fazendo um sinal para eu lhe alcançar. Faço o que ela solicita por gestos, e
ela me leva até um cômodo da casa, cheio de armários com muitos papéis e tubos
de ensaio. O cômodo cheira a papel velho com um odor forte de alguma solução
que não sei explicar ao certo qual é. Da vontade de espirrar, e o cheiro forte
enjoa.
Pat pega uma faca e corta a bolsa para
abri-la: retira uns papéis e me alcança.
"Toma, é isso
que tu tanto procura”.
"O que é
isso?"
"Já falei, aí
está tudo que tu precisa saber”. Vamos sair daqui. A gente nem devia mais vir
até aqui. Vamos embora!"
"Tá,
mas..."
"Chega, Mel! Eu
não gosto desse lugar e muito menos de falar neste assunto."
"Que assunto,
Pat? Por favor, me esclarece!"
“Já disse. Tudo o que
tu precisa saber está nos papéis que te alcancei. Agora chega, vamos sair daqui
de uma vez. Esse lugar me traz péssimas recordações e dá arrepios. Além do
mais, tenho que sair um pouco.”
"Aonde mais tu
vai?"
"Nem sei, vou
andar por aí, espairecer! Eu tento esquecer o que aconteceu, mas tu não deixa!
Quem me dera estar que nem tu. Sem lembrar de nada. Tu não sabe o teu privilégio.”
O que Pat disse soou com tanto
ressentimento que nem perguntei a ela o que aconteceu. Ela não ia me dizer
mesmo. Pelo que ela falou, parecia querer estar no meu lugar. Eu, toda perdida,
sem lembranças, e ela dizendo que é privilégio. Não sabe de nada!
Pego o bolo de papel que ela me entregou.
Dou uma olhada por cima e avisto um endereço: Av. João Pessoa, 943 - Bairro
Farroupilha. Pego o papel para ver do que se trata, mas nele tem uma linguagem
técnica, com algumas fórmulas matemáticas que eu não entendo.
Vou até o endereço, mas o local é um
prédio vazio, com placas de “vende-se” e um cartaz onde diz: Imobiliária
Farroupilha, com um número de telefone. Anoto e ligo.
"Imobiliária
Farroupilha, Boa tarde!”
"Imobiliária? O
que é isso mesmo?”
"Local que vende
ou aluga imóveis, em que posso te ajudar?”
"Ah, sim, é
que... Vi esse telefone num cartaz colado nas paredes de um prédio...”
"Qual o
endereço?”
"É: Av. João
Pessoa, 943 - Bairro Farroupilha.”
"Sim. Este
imóvel está à venda, lhe interessa?”
"Me interessa?!”
"Então tá, terá
que vir até a imob...”
"Calma! Preciso
de informações, para saber se me serve ou não.”
"Mais
informações, somente vindo até a imobiliária. Avenida João...”.
"Só quero saber
por que o imóvel está à venda e o que tinha lá antes?”
"Não sei se
posso te passar essas informações. Sou nova aqui e estou em contrato de
experiência.”
"Ah, moça, me
ajuda só com mais uma ou duas informações, coisa rápida.”
"Tá bem! Também
não vejo razão para não te ajudar. Está à venda porque a clínica queria um
imóvel maior.”
"Clínica?"
"Sim. Uma
clínica psiquiátrica!"
"E você sabe
qual era o nome da clínica?"
"Uhmmm acho que
temos aqui nos registros, deixe-me ver. Os papéis estavam aqui por cima, agora
pouco."
"Puxa, muito
obrigada! Tu não sabe o quanto tá me ajudando"
"Encontrei, o
nome da clínica era tu tu tu....."
Não acredito que caiu
a ligação, logo agora. Tomara que seja a mesma moça que atenda ao telefone, nem
perguntei o nome dela. Ligo novamente e um homem atende. Explico que
estava falando com uma atendente, e a ligação havia caído. Passo o que estava
falando com ela e solicito que a localize. Ele diz que é o dono da imobiliária
e que ela está atendendo alguns clientes presencialmente. Solicito as
informações, e ele, friamente, fala que só pode me dizer pessoalmente e finaliza
a ligação sem me dar chance de continuar
Nossa, que péssimo
atendimento! Mas ao menos eu já sei que era uma clínica psiquiátrica o que
havia no local. Dá para começar a imaginar por que Pat não gosta de tocar no
assunto. Mesmo assim, minhas dúvidas aumentam, pois eu consigo metade das
informações, o que me deixa mais intrigada ainda.
Chamo
um táxi e vou para casa. Ao chegar, tudo escuro. Nem sinal de minha irmã, nem
de Pingo. Resolvo então ler o restante dos papéis que minha irmã havia retirado
da pasta. Ela disse que as respostas estavam ali.

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