Depois
de sair com muita pressa do Café do Porto, resolvo entrar no primeiro ônibus
que vejo passar na avenida. Não sei para que parte da cidade ele vai, mas como
também não sei como voltar para o apartamento, decido que qualquer lugar
distante do Lucas me faz sentir melhor. Igual, olho atentamente em volta para
ter certeza que aquele grudento não me seguiu, ele me deixa muito agoniada.
Ainda mais pela maneira que segurou meu pulso.
Consigo
um lugar na janela e me perco em pensamentos. Em relação a mais nova falta,
como recorrer às pessoas que possam me ajudar a entender a situação que me
levou a estar assim? Sem memória, sem uma orelha, sem alguns dedos e agora sem
minha voz. De repente o ônibus do qual estou passa bem próximo a um grande
parque, tem muitas árvores, um vasto gramado. É um início de noite bem
agradável! Finalmente parou aquela chuva fina que parecia interminável.
Resolvo
sinalizar para descer ali e conhecer melhor o ambiente. Ao adentrar o parque
avisto um laguinho e bem próximo uma grande estrutura de concreto onde bem em
cima tem algo de madeira, fazendo parecer um ventilador gigante. Não sei exatamente
o que é, mas dá um charme a mais ao lugar.
Sento
em um banco laranja e procuro calmar, também me esforçar para que minha voz
volte. Notei que ela sumiu assim que fiquei muito nervosa e com medo. De alguma
forma este lugar agora me faz sentir segura. Ao mesmo tempo perdida, pois não
sei voltar para casa e nem mesmo consigo perguntar alguma pista que me leve até
lá. Resolvo então aproveitar este momento, a paz que este lugar traz para
tranquilizar. Mas ainda nada da voz.
Quando
fecho levemente os olhos a fim de esquecer um pouco tudo isso, ouço uma
familiar voz infantil, gritando entusiasmada:
“Olha
mãe! É a tia Mel!”
Jamais
vou esquecer a voz do menino que, sem saber, teve a grande responsabilidade de
mostrar o caminho da minha própria moradia. Era o maior fã das bolachas que
para mim pareceram tão mais ou menos.
Surge
ele na minha frente de mãos dadas com sua mãe. Ela diz:
“Oi
Melissa! Não te vimos mais no prédio, tu ta bem?”
Tento
falar, porém apenas sai uma tentativa muito rouca e baixa de som. Respondo
sinalizando com a mão na garganta. Nisso a vizinha – a qual nem sabia da existência
– parece me entender:
“Ah
sim! Garganta inflada. Guria! Esses dias estive na mesma, tive até que tomar
antibiótico. Mas poupa tua voz, se cuida e rapidinho vai estar melhor”.
Conclui
a frase com um sorriso gentil. Ainda bem que tenho bons vizinhos, penso. O que
se confirma com a seguinte frase proferida por ela:
“Viu,
a gente tava no cinema e agora indo pra casa. Não sei tua programação, se
quiser uma carona. Já ta meio tarde, né?!”
Faço
com a cabeça que sim, aceito a carona. Tento dizer que estou mesmo bem cansada,
mas ainda sai um som rouco e baixo da minha voz.
Bom
que minha vizinha respeita meu momento e não puxa muito assunto comigo, já com
o filho comenta a viagem toda sobre o filme que viram. Uma animação daquelas em
os adultos sérios “usam” as crianças como pretexto de irem assistir. E pelos
comentários pareceu muito bom mesmo.
Chegamos
no prédio e faço sinal de agradecimento. Subo com muita ansiedade para o
apartamento, diferente da primeira vez que não me senti pertencente àquele lugar,
agora sinto um ambiente mais familiar. Começo a procurar o máximo de
informações possíveis na casa. Reviro gavetas, caixas, pastas, livros,
anotações. De todo o asco que o Lucas me provocou ao menos falou pontos
inéditos, são pistas úteis para conseguir chegar alguma lembrança efetiva. Ao
mesmo tempo me assustei: tratamento, casa estranha no centro, trabalho em um
jornal. Caramba! Como isso tudo sumiu da minha mente?!
Abro
uma pasta onde tem diversos papeis com escritas a mão. Aleatoriamente pego um que
inicia com mensagem assinada por um tal de Carlinhos Carneiro, não sei o que
ele foi ou é para mim. Um ex-namorado? Um amigo? Um primo? Cogito “foi” pela
data que consta nesta carta, janeiro de 2004. Lá na Fotocopiadora soube que
estamos em 2015. É bem curiosa a sensação de ler pela primeira vez algo que já
tinha conhecimento há anos, mas realmente, a impressão que tenho é de nunca
antes ter visto este material.
Esse
Carlinhos tinha/tem um grande carinho por mim. Pelo que diz na mensagem, não
nos vemos há tempos, ele pede para que eu não o esqueça quando me mudar para
Porto Alegre. Para isso chegou a escrever uma música, e o trecho que me rouba
um largo sorriso é:
“se
tu quiser que eu te leve eu aprendo a dirigir”
Desse
jeito cada vez mais quero redescobrir a Melissa que um dia fui.

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