quinta-feira, 18 de maio de 2017

8. Já faz um tempo - Por Marcelo Kettz



Ainda estou tentando processar o que acabou de acontecer quando escuto a voz me chamar mais uma vez, agora mais perto.

“Mel, anda logo. Tu sabe que a gente tá atrasada, guria”

Da primeira vez, aquela voz já parecia familiar. Agora, mais nítida e me chamando de “Mel”, tenho certeza de que é da Patrícia. Me levanto, olho ao redor e vejo uma pequena sala, bem diferente do ambiente do meu apartamento. O chão é coberto por um tapete velho com algumas marcas de vômito. Nas paredes, um tipo de papel amarelo encardido descasca em várias partes. O teto tem inúmeras marcas de mofo e uma lâmpada apagada, pendurada por fios bem no centro. A luz forte, que entra pela única janela, revela poucos móveis: encostados em uma das paredes, uma cama velha de madeira e um colchão sem lençóis; na parede oposta, uma velha mesa de carvalho, coberta de marcas de uso; diversas garrafas vazias pelo chão. Além disso, posso ver duas portas. A que está entreaberta parece levar a um banheiro. A outra deve ser a saída, penso. Me aproximo para abri-la.

“Patrícia?”

Quando falo, minha cabeça começa a latejar de dor. Ao escutar minha voz, ela abre a porta e entra no quarto.

“Guria, por que tu tá demorando tanto? Tu sabe que a gente tem que chegar lá antes das 11h, ou vamos pagar mais caro.”

“Espera aí, o que foi que aconteceu antes? Tu estava me falando sobre o medicamento quando começaram aquelas coisas estranhas.”

“Que medicamento, guria? Já te falei pra não aceitar essas coisas que a galera oferece aqui. Eu sei que tu está deprê por causa daquele teu namoradinho, mas a gente só vem pro casarão pra beber um pouco e se divertir.”

Ela tem razão. Só de pensar no Lucas já me sinto desanimada. Como pude sustentar um relacionamento com alguém assim?

“Mel, eu sei que tu me acha uma mala nessas horas, mas sou tua irmã mais velha e preciso te orientar sobre isso. Se tu começar a tomar essas porcarias, vai acabar igual àquele coitado ali.”

Ela aponta para o corredor. Um rapaz loiro e magricelo está sentado no chão, com as costas na parede. Parece estar drogado, pois olha fixamente para um canto vazio, como se contemplasse algo fascinante.

“Não, não. Tu tava me contando sobre o remédio experimental que tomei pra esquecer de alguma coisa horrível que fiz. Falando nisso, o que foi que eu fiz, Patrícia?”

“Para de me chamar de Patrícia, tu sabe que prefiro Pat.”

“Tá bom. O que foi que a gente fez, Pat?”

“Acho que o que tu fez foi aceitar uma dessas porcarias do Henrique, depois de beber demais. Aquele guri tem prazer em ver os outros viajando com esses comprimidos. Mas chega de papo furado, vamos logo ou não vai dar tempo.”

Ela pega o meu braço e me puxa pelo corredor. Tem uma força surpreendente, mesmo sendo baixinha. Passamos por vários quartos em estado precário. Vejo pessoas dormindo em alguns deles. Enquanto sou arrastada para fora daquela casa imunda, fico pensando no que aconteceu e no que a Patrícia me disse. Será que foi tudo viagem da minha cabeça por causa de alguma coisa que tomei na noite passada? Por que não consigo lembrar de mais nada? Misturar drogas e álcool pode fazer isso com a memória? Minha cabeça continua doendo, então decido deixar Patrícia me conduzir. Ela me passa segurança. Sinto que posso confiar nela.

Saímos do casarão em uma rua larga de paralelepípedos. Poucos carros estão estacionados naquela quadra e somos as únicas pessoas ali. Parece um bairro tranquilo. No céu azul, sem nuvens, o sol brilha forte e imagino que já passa da metade da manhã. A claridade faz minha cabeça doer ainda mais.

“Onde temos que ir com tanta pressa?”

“Tá bom, vou fazer teu joguinho, senhorita amnésia alcoólica. A gente tem que pegar o Pingo na casa daquela moça que cuida de cachorros. Ela disse que tem que ser até as 11h ou vai nos cobrar mais uma diária. Absurdo, eu sei. Mas é melhor do que deixar o coitadinho sozinho naquele apê. Tu sabe como ele é hiperativo, ia acabar destruindo alguma coisa.”

Caminhamos algumas quadras até parar em frente a uma casa de cerca branca. Pelo espaço entre as madeiras, vejo um bonito gramado que se estende da lateral até os fundos do terreno. Vários cachorros brincam por ali. Um deles corre na nossa direção assim que nos vê. Vira-latas, pequeno porte, pelo marrom. É o cachorro da foto que encontrei naquela caixa. Não sei dizer se tudo aquilo tudo foi alucinação, mas o cachorro e minha irmã, definitivamente, são reais.

“Pinguinho, que saudade, meu mimoso.”

Ela entra pelo portão e se abaixa perto do cachorrinho. Pingo não sabe se cheira, lambe ou sacode o rabinho para ela. Parece extremamente feliz em nos ver. Patrícia tira uma cordinha do bolso e prende na coleira.

“Entra aqui, Mel. Segura um pouquinho ele enquanto eu vou ali acertar com a senhora.”

Faço como ela me pediu. Pingo me olha e começa a fazer festinha. O cachorrinho gosta tanto de mim e eu não consigo me lembrar dele. Isso me deixa mal. Alguns minutos depois, Patrícia sai da casa e voltamos a caminhar pela rua. Passo a coleira para ela.

“Escuta, Pat, tem algo que preciso te contar.”

“O que foi? Alguma coisa do teu namoradinho?”

“Não. Quer dizer, não sei. Está acontecendo alguma coisa estranha comigo. A minha cabeça está uma bagunça. Eu não sei direito o que aconteceu na noite passada. Não consigo me lembrar de quase nada da minha...”

Antes que pudesse terminar, Pingo começa a latir e sai correndo em disparada, arrancando a corda da mão da Patrícia.

“Pingo, volta aqui!”

Ela corre atrás do cão fugitivo. Aperto o passo para não ficar para trás. Alguns metros depois, à frente de um pequeno edifício, vejo a pequena fera abocanhando o calcanhar do carteiro. O pobre homem chacoalhava as mãos e tentava livrar a calça da mordida apertada de Pingo. Patrícia se abaixa e pega o cachorrinho no colo. Pede mil desculpas ao carteiro, que vai embora resmungando. Faz sinal de positivo para mim, enquanto entra pelo portão em direção a porta do prédio. Me preparo para segui-la, quando vejo que, por causa da confusão, o carteiro não conseguiu empurrar totalmente uma das correspondências pra dentro da caixa. Quando me aproximo para colocá-la no lugar, o nome escrito nela me chama a atenção. Pego a carta nas mãos e leio: Melissa Souza.

Rasgo o envelope. Não sei o motivo, mas meu coração dispara enquanto leio:

“Melissa, já faz um tempo que não te escrevo. A vida por aqui anda corrida, mas eu sabia que seria assim quando decidi que largaria tudo pra seguir o meu sonho de ser músico. Tenho sentido a tua falta, e penso em ti sempre que fico sozinho. Terminei aquela música que estava escrevendo pra ti. Vai ser um sucesso, tenho certeza. Coloquei o comecinho pra que tu possa identificar quando escutar no rádio.

Melissa
Te fiz um rock, Melissa.
Pode crer que é sobre amor.
Mas eu não sou publicitário,
e a minha vó é de Bagé.
Eu te escrevi uma carta,
cheia de frases de impacto.
se precisar de alguma coisa, pode pedir que eu faço.
Se tu quiser que eu te leve, eu aprendo a dirigir!

Sei que, em breve, tu vai pra Porto Alegre pra seguir o teu sonho de estudar Jornalismo. Boa sorte, e não te esquece de mim.

Carlinhos Carneiro, janeiro de 2004”

Nenhum comentário:

Postar um comentário