Ainda
estou tentando processar o que acabou de acontecer quando escuto a voz me
chamar mais uma vez, agora mais perto.
“Mel,
anda logo. Tu sabe que a gente tá atrasada, guria”
Da
primeira vez, aquela voz já parecia familiar. Agora, mais nítida e me chamando
de “Mel”, tenho certeza de que é da Patrícia. Me levanto, olho ao redor e vejo
uma pequena sala, bem diferente do ambiente do meu apartamento. O chão é
coberto por um tapete velho com algumas marcas de vômito. Nas paredes, um tipo
de papel amarelo encardido descasca em várias partes. O teto tem inúmeras
marcas de mofo e uma lâmpada apagada, pendurada por fios bem no centro. A luz
forte, que entra pela única janela, revela poucos móveis: encostados em uma das
paredes, uma cama velha de madeira e um colchão sem lençóis; na parede oposta,
uma velha mesa de carvalho, coberta de marcas de uso; diversas garrafas vazias
pelo chão. Além disso, posso ver duas portas. A que está entreaberta parece
levar a um banheiro. A outra deve ser a saída, penso. Me aproximo para abri-la.
“Patrícia?”
Quando
falo, minha cabeça começa a latejar de dor. Ao escutar minha voz, ela abre a
porta e entra no quarto.
“Guria,
por que tu tá demorando tanto? Tu sabe que a gente tem que chegar lá antes das
11h, ou vamos pagar mais caro.”
“Espera
aí, o que foi que aconteceu antes? Tu estava me falando sobre o medicamento
quando começaram aquelas coisas estranhas.”
“Que
medicamento, guria? Já te falei pra não aceitar essas coisas que a galera
oferece aqui. Eu sei que tu está deprê por causa daquele teu namoradinho, mas a
gente só vem pro casarão pra beber um pouco e se divertir.”
Ela
tem razão. Só de pensar no Lucas já me sinto desanimada. Como pude sustentar um
relacionamento com alguém assim?
“Mel,
eu sei que tu me acha uma mala nessas horas, mas sou tua irmã mais velha e
preciso te orientar sobre isso. Se tu começar a tomar essas porcarias, vai
acabar igual àquele coitado ali.”
Ela
aponta para o corredor. Um rapaz loiro e magricelo está sentado no chão, com as
costas na parede. Parece estar drogado, pois olha fixamente para um canto
vazio, como se contemplasse algo fascinante.
“Não,
não. Tu tava me contando sobre o remédio experimental que tomei pra esquecer de
alguma coisa horrível que fiz. Falando nisso, o que foi que eu fiz, Patrícia?”
“Para
de me chamar de Patrícia, tu sabe que prefiro Pat.”
“Tá
bom. O que foi que a gente fez, Pat?”
“Acho
que o que tu fez foi aceitar uma dessas porcarias do Henrique, depois de beber
demais. Aquele guri tem prazer em ver os outros viajando com esses comprimidos.
Mas chega de papo furado, vamos logo ou não vai dar tempo.”
Ela
pega o meu braço e me puxa pelo corredor. Tem uma força surpreendente, mesmo
sendo baixinha. Passamos por vários quartos em estado precário. Vejo pessoas
dormindo em alguns deles. Enquanto sou arrastada para fora daquela casa imunda,
fico pensando no que aconteceu e no que a Patrícia me disse. Será que foi tudo
viagem da minha cabeça por causa de alguma coisa que tomei na noite passada?
Por que não consigo lembrar de mais nada? Misturar drogas e álcool pode fazer
isso com a memória? Minha cabeça continua doendo, então decido deixar Patrícia me
conduzir. Ela me passa segurança. Sinto que posso confiar nela.
Saímos
do casarão em uma rua larga de paralelepípedos. Poucos carros estão
estacionados naquela quadra e somos as únicas pessoas ali. Parece um bairro
tranquilo. No céu azul, sem nuvens, o sol brilha forte e imagino que já passa
da metade da manhã. A claridade faz minha cabeça doer ainda mais.
“Onde
temos que ir com tanta pressa?”
“Tá
bom, vou fazer teu joguinho, senhorita amnésia alcoólica. A gente tem que pegar
o Pingo na casa daquela moça que cuida de cachorros. Ela disse que tem que ser
até as 11h ou vai nos cobrar mais uma diária. Absurdo, eu sei. Mas é melhor do
que deixar o coitadinho sozinho naquele apê. Tu sabe como ele é hiperativo, ia
acabar destruindo alguma coisa.”
Caminhamos
algumas quadras até parar em frente a uma casa de cerca branca. Pelo espaço
entre as madeiras, vejo um bonito gramado que se estende da lateral até os
fundos do terreno. Vários cachorros brincam por ali. Um deles corre na nossa
direção assim que nos vê. Vira-latas, pequeno porte, pelo marrom. É o cachorro
da foto que encontrei naquela caixa. Não sei dizer se tudo aquilo tudo foi
alucinação, mas o cachorro e minha irmã, definitivamente, são reais.
“Pinguinho,
que saudade, meu mimoso.”
Ela
entra pelo portão e se abaixa perto do cachorrinho. Pingo não sabe se cheira,
lambe ou sacode o rabinho para ela. Parece extremamente feliz em nos ver.
Patrícia tira uma cordinha do bolso e prende na coleira.
“Entra
aqui, Mel. Segura um pouquinho ele enquanto eu vou ali acertar com a senhora.”
Faço
como ela me pediu. Pingo me olha e começa a fazer festinha. O cachorrinho gosta
tanto de mim e eu não consigo me lembrar dele. Isso me deixa mal. Alguns
minutos depois, Patrícia sai da casa e voltamos a caminhar pela rua. Passo a
coleira para ela.
“Escuta,
Pat, tem algo que preciso te contar.”
“O
que foi? Alguma coisa do teu namoradinho?”
“Não.
Quer dizer, não sei. Está acontecendo alguma coisa estranha comigo. A minha
cabeça está uma bagunça. Eu não sei direito o que aconteceu na noite passada.
Não consigo me lembrar de quase nada da minha...”
Antes
que pudesse terminar, Pingo começa a latir e sai correndo em disparada,
arrancando a corda da mão da Patrícia.
“Pingo,
volta aqui!”
Ela
corre atrás do cão fugitivo. Aperto o passo para não ficar para trás. Alguns
metros depois, à frente de um pequeno edifício, vejo a pequena fera abocanhando
o calcanhar do carteiro. O pobre homem chacoalhava as mãos e tentava livrar a
calça da mordida apertada de Pingo. Patrícia se abaixa e pega o cachorrinho no
colo. Pede mil desculpas ao carteiro, que vai embora resmungando. Faz sinal de
positivo para mim, enquanto entra pelo portão em direção a porta do prédio. Me preparo para segui-la, quando vejo que, por causa da
confusão, o carteiro não conseguiu empurrar totalmente uma das correspondências
pra dentro da caixa. Quando me aproximo para colocá-la no lugar, o nome escrito
nela me chama a atenção. Pego a carta nas mãos e leio: Melissa Souza.
Rasgo
o envelope. Não sei o motivo, mas meu coração dispara enquanto leio:
“Melissa,
já faz um tempo que não te escrevo. A vida por aqui anda corrida, mas eu sabia
que seria assim quando decidi que largaria tudo pra seguir o meu sonho de ser
músico. Tenho sentido a tua falta, e penso em ti sempre que fico sozinho. Terminei
aquela música que estava escrevendo pra ti. Vai ser um sucesso, tenho certeza.
Coloquei o comecinho pra que tu possa identificar quando escutar no rádio.
Melissa
Te fiz um rock, Melissa.
Pode crer que é sobre amor.
Mas eu não sou publicitário,
e a minha vó é de Bagé.
Eu te escrevi uma carta,
cheia de frases de impacto.
se precisar de alguma coisa, pode pedir que eu faço.
Se tu quiser que eu te leve, eu aprendo a dirigir!
Te fiz um rock, Melissa.
Pode crer que é sobre amor.
Mas eu não sou publicitário,
e a minha vó é de Bagé.
Eu te escrevi uma carta,
cheia de frases de impacto.
se precisar de alguma coisa, pode pedir que eu faço.
Se tu quiser que eu te leve, eu aprendo a dirigir!
Sei
que, em breve, tu vai pra Porto Alegre pra seguir o teu sonho de estudar Jornalismo.
Boa sorte, e não te esquece de mim.
Carlinhos
Carneiro, janeiro de 2004”

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