sexta-feira, 12 de maio de 2017

7 – Desespero - Por Bagui


 

Passo alguns minutos pensando em quem será esse tal de Carlinhos. Talvez seja somente um primo ou um amigo meu mesmo, mas de alguma forma quero acreditar que Carlinhos era meu namorado. Qualquer coisa deve ser melhor que o Lucas.

Volto a revirar a casa em busca de informações que me mostrem a Melissa que um dia eu fui. Em uma prateleira alta no guarda-roupa, encontro algumas caixas de um papelão listrado em preto e branco. Subo em uma cadeira e consigo alcançá-las. Essa tarefa de revirar as coisas é difícil tendo uma mão só, ainda não me acostumei. Pra facilitar, decido pegar uma por uma das caixas e colocar em cima da cama. Finalmente, abro uma delas. Encontro somente contas, muitas contas. Na segunda há fotos. Isso me anima, deve haver alguma foto de família. Tenho esperanças de reconhecer algum rosto, mesmo que eu não me lembre de quem se trata. Só uma vaga sensação de familiaridade, como a que senti vendo aquele filme, já me confortaria. De certa forma, parece que tudo o que a Melissa viveu está aqui, guardado em algum lugar dentro de mim, mas eu não consigo acessar.

Ao contrário do que eu esperava não encontro muitos rostos diferentes; a maioria das fotos são minhas e do Lucas. Parecemos tão felizes nelas e isso me causa certa culpa, como se eu tivesse matado o amor que a Melissa sentia. Pensando bem, é bobagem. Sorte dela se eu  terminar com ele, afinal. Além do Lucas, vejo muitas fotos de uma moça que, tirando os cabelos loiros, se parece muito comigo. Mesmo assim, não consigo me lembrar dela, não sinto nada quando a vejo. Há também algumas fotos de um cachorro de pêlo marrom. Ele eu lembro de ter visto em algum momento, só não sei onde. Fora essas, havia duas de um homem de cabelos pretos e meio enrolados e algumas minhas com outras pessoas jovens.

Ainda estou olhando as caixas quando ouço batidas na porta da sala. Porque não esperava receber ninguém e porque as batidas não são simples batidas, mas socos que parecem carregados de raiva, sinto também o meu coração soquear meu peito, como se quisesse sair dali de dentro o mais depressa possível. Procuro no quarto por algo que possa cobrir a falta da minha orelha e encontro uma touca de crochê rosa, que eu visto. Coloco também um casaco com bolsos pra esconder que também minha mão não está aqui. Vou até a sala, mas não abro a porta. Fico olhando para ela durante algum tempo, com medo de quem possa ser. No meu peito e na porta, os socos se intensificam. Finalmente, decido abrir.

Uma mulher muito pequena me olha de forma desesperada. É a mulher que vi nas fotos e agora sinto que não quero me parecer com ela. Ela cospe meu nome da boca e então avança os braços na minha direção. Tento recuar, mas afinal ela só quer um abraço. Sinto pena, então ergo a mão que me resta até a altura das costas da moça. Ela fala meu nome de novo e dessa vez soa quase como uma pergunta. Quero responder que sim, acho mesmo que sou a Melissa, mas da minha boca não sai mais que um ruído rouco. O carpete já não fede a cachorro molhado, mas a cachorro morto.

Faço sinal para ela entrar no apartamento e fecho a porta. Quando me viro levo mais um pequeno susto com ela me olhando fixamente. Penso em sair correndo, mas ela me abraça de novo.

“Mel, eu tava tão preocupada contigo, onde é que você tava?”

Não respondo. Nem se eu pudesse falar eu saberia responder a isso. Ela então me olha daquele jeito de novo, como se soubesse que não sou mais a Melissa que ela parece gostar tanto e quisesse encontrar algum vestígio disso nos meus olhos. Fico satisfeita por ainda ter eles comigo.

“Tu sabe quem eu sou?”

Não quero que ela perceba o que está acontecendo, então tudo o que faço é balançar a cabeça afirmativamente. Pra disfarçar dou um sorriso e aponto para a minha garganta, na esperança de que também ela pense que é só uma garganta inflamada.

“Ah, que alívio, Melissa! Então sabe que sou tua namorada, não sabe?”

Por isso eu não esperava. Quer dizer, tem o Lucas e talvez o Carlinhos. Pelo visto a Melissa não era muito apegada. Mais uma vez faço sinal afirmativo com a cabeça e mais uma vez ela me abraça. Parece chorar no meu ombro. Quero perguntar o que houve, mesmo sabendo que seria em vão, mas ela responde antes mesmo de eu tentar.

“Ah, meu Deus, cara! Tu esqueceu de tudo mesmo. Eu sou tua irmã, não tua namorada. Vem aqui, senta comigo que quero te falar umas coisas.”

Ela seca as lágrimas e eu a sigo até o sofá. É a segunda vez que sento aqui, mas é a primeira em que reparo na decoração da sala. É pequena, na verdade, mas não parece tanto porque uma janela cobre toda a parede lateral e a parede à minha frente é igualmente coberta por um espelho em moldura branca. Através do espelho posso ver a parte de trás da TV, quase todo o tapete branco sob meus pés e também o meu reflexo e o da mulher que se diz minha irmã. A propósito, tinha deixado a mão existente em cima do colo, mas parece que meu dedo anelar também sumiu, de modo que a coloco de volta no bolso.

“Escuta, Mel, que eu tenho bastante coisa pra te falar.”

Me pergunto se ela percebeu que eu não tenho voz pra poder interromper ela, caso eu queira. Só me resta ouvir mesmo.

 “Ok, pra começar, meu nome é Patrícia. Quando tua garganta melhorar, lembra de me chamar de Pat. Aliás, tu faz bem em estar assim toda encasacada, vai melhorar mais rápido.”

Ela realmente achou que é um simples resfriado. Parece tão burrinha quanto o cara da fotocopiadora.

“Então... eu vou ser direta. Há algum tempo aconteceu algo que não deveria ter acontecido, algo que a gente não deveria ter feito. Nós duas nos arrependemos disso, sabe. Acontece que enquanto eu tentava superar aquilo tudo no meu canto, tu começou a ficar meio paranóica. Tu tava meio louca na verdade, achando que tava sendo perseguida e esse tipo de coisa. Olhava praquele teu chaveiro de santa e ficava dizendo que a santinha não faria isso, que ela te condenava e que por causa do que tu fez tu iria pro inferno. Tu ficava dizendo que precisava se confessar e chamar a polícia e gritar no centro pra todo mundo ouvir e... sabe. Eu me preocupava muito, não só por você, mas também por mim.

Depois do que aconteceu, tu teve que começar um tratamento pós traumático, mas não parecia resolver. Então eu descobri uma casa no centro e te levei lá. É uma casa de tratamento psiquiátrico também, só que não é muito... legal, sabe? Depois que você foi pra lá teve que abandonar o tratamento anterior porque os remédios não eram ‘compatíveis’, como eles disseram."

Quero perguntar o que aconteceu. Preciso saber de tudo, não importa o quão ruim isso possa ser. Como não tenho voz faço sinal pra ela esperar e vou procurar uma caneta. Volto a sentar no sofá e pego a mão dela. Escrevo “o que a gente fez?”. Sorte minha que me sobrou a mão direita e que ela não reparou a falta do dedo anelar. Ela olha de canto, mas fecha a mão e continua falando como se não tivesse visto.

“Essa casa que te falei fazia uns tratamentos experimentais, pesquisavam formas de criar uma memória seletiva. Quer dizer, apagar algumas memórias específicas. Isso significa que poderiam apagar as memórias da coisa que aconteceu com você.

Funciona assim: tu pensa naquilo que quer esquecer e, em seguida, recebe uma injeção que inibe as proteínas responsáveis pela ligação entre os neurônios que interagem na formação daquela memória.

Só que, depois dessa injeção, você tinha que tomar uma série de pílulas porque o inibidor podia se espalhar pelo teu sistema nervoso. Eles disseram que, se você não tomasse as pílulas que controlam o efeito das outras drogas, isso afetaria toda a tua rede neurológica, bloqueando também as proteínas responsáveis por outras memórias tuas.

Caso tu parasse totalmente de tomar as pílulas, poderia acontecer o que aconteceu, sabe, você perder toda a memória. Além disso, a médica falou que poderiam ter outros efeitos colaterais, mas como é experimental eles ainda não sabiam dizer que tipo de efeitos seriam esses. Tô dando muita informação?”

Eu mal consigo acompanhar então penso em dizer que sim, mas faço sinal indicando que não. Nesse momento ela passa o cabelo pra trás da nuca e, por alguns momentos, deixa a mão pousada no pescoço. Ela olha pro lado esquerdo, depois pra mim, suspira e só então volta a falar.

“Há umas duas ou três semanas tu ia começar um tratamento intensivo lá na clínica do centro, tinha que ser internada. Lembro que me ligou dizendo que falou pro teu namorado esquisito que ia visitar nossa mãe e que caso ele comentasse qualquer coisa comigo era pra eu confirmar. Tu deve ter feito isso só pra se garantir porque ele não ia falar comigo mesmo, só quem dá atenção pra ele é aquela velha. De qualquer forma, aquela foi a última vez que falei contigo antes de você sumir.”

Desde que ela começou a falar, senti que a ansiedade e a angústia iriam fazer desaparecer o que restava de mim. Meu coração bate em desespero. Não consigo parar de pensar no que a gente possa ter feito pra eu ter que recorrer a esse tipo de tratamento. Não consigo parar de pensar no que eu possa ter feito.

Decidida, eu puxo a mão dela mais uma vez. Sublinho a frase “o que a gente fez?”. Ela diz que não pode falar, que é pra eu esquecer. Escrevo embaixo “Me fala”. Nada. Agora com mais força, volto a sublinhar a frase “o que a gente fez?”. Ela puxa a mão e eu ouço o ruído surdo da sua pele se rasgando sob a ponta da caneta. Com a outra mão, ela pressiona o ferimento. Mais uma vez a ouço chorando. Ela está virada para a janela.

“O nosso pai, Melissa, o nosso pai. E não é só ele, sabe, mas eu prometi que não ia te falar. Para com isso, por favor. Você tá ficando paranoica de novo, porque simplesmente não para?”

A voz de Patrícia se tornava cada vez mais embargada conforme ela tentava falar, de modo que quase não consegui entender as últimas palavras. Assim que compreendi o sentido do que ela disse, vi a caneta caindo como pena no tapete fofo. Não podia mais segurá-la; na extensão do meu braço resta apenas o pedaço inútil de carne que é a palma sem os dedos.

 No reflexo do espelho percebo que há algo de estranho com meu rosto também. Decido olhar mais de perto, mas ao colocar o pé no chão meu corpo tomba pra frente e eu caio. Minha perna esquerda sumiu. Ouço Patrícia gritar meu nome, mas não ouço seus passos vindo em minha direção; ela permanece parada. Depois de algumas tentativas, consigo colocar meu corpo em pé novamente.

Ao me aproximar do espelho percebo que meu rosto se reduziu a uma massa branca e disforme. Não há mais cabelo, não há mais boca, não há mais nariz. Somente meus olhos não me abandonaram. No reflexo noto que a parede antes branca agora está coberta por um papel amarelado. Eu me desequilibro em cima da minha única perna e caio novamente. Para me proteger da queda, avanço a palma da minha mão à frente do meu corpo e sinto-a tocar em algo que parece úmido e pegajoso como mofo. Um cheiro de madeira, vômito e flores mortas inunda o ambiente. É nesse momento que percebo que Patrícia sumiu.

 Mais uma vez eu estou sozinha. 

Ergo meus olhos e vejo a moldura branca do espelho se contorcer até se transformar em uma mesa velha de carvalho. Um brilho de metal assalta minha mente e eu fecho os olhos, deixando minha cabeça cair sobre aquela umidade que, descobri pelo cheiro, era vômito embolorado no tapete. Sinto uma dor insuportável, como se alguém pregasse uma estaca na minha testa e outra na minha nuca.

Alguns instantes depois, torno a abrir os olhos e percebo que meus dedos, mãos, pernas, cabelos, nariz, boca e voz voltaram. Meu corpo está inteiro novamente, mas nunca me senti tão despedaçada. A casa, que só há pouco eu começara a me habituar, já não era mais a mesma.

Ao longe ouço uma voz.

“Melissa, meu bem, já terminou o banho?”

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